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Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650058
O padrão é consistente com mecanismo de fragilidade: o
estresse térmico atua como precipitante inespecífico em
indivíduos com reserva fisiológica reduzida, e a causa registrada
na declaração de óbito é a doença de base, não o calor. A ausência
de déficit compensatório nas semanas seguintes indica que o
excesso não se explica por antecipação de óbitos iminentes, o que
é coerente com o padrão difuso entre causas e com a preservação
das neoplasias: o calor precipitou descompensação em indivíduos
com reserva reduzida, e não em população em fim de vida.
Disso decorrem três implicações. A primeira é que, neste
evento, estudos restritos a desfechos cardiovasculares teriam
captado parcela minoritária do impacto: o capítulo circulatório
responde por 21% do excesso, e 79% ocorrem fora dele. O
pressuposto de concentração cardiovascular, dominante na
literatura(1), não foi corroborado pelos dados deste estudo. A
segunda é que, neste evento, indicadores-sentinela baseados em
causas específicas mostraram utilidade limitada, pois o sinal se
diluiu por muitos capítulos. A terceira é que controles negativos
definidos por causa são inválidos neste contexto, restando a
validação por controles temporais, espaciais e por causas de
trajetória longa.
A composição observada é também compatível com o que se
sabe sobre vulnerabilidade farmacológica ao calor, já que
diuréticos, anti-hipertensivos, anticolinérgicos e psicotrópicos
alteram termorregulação e concentram-se na população com
doença crônica(6), hipótese não testável com os dados do SIM.
Ausência do calor nas estatísticas de causa básica
O achado de zero óbitos codificados como X30, em um evento
com cerca de 217 mortes em excesso estimadas, é a principal
contribuição deste trabalho ao debate sobre vigilância. A
explicação é clínica antes de ser burocrática: o calor raramente
mata por hipertermia franca em população geral, e sim
precipitando descompensação em quem já tem doença crônica. O
médico registra, corretamente, a doença que conduziu à morte; a
condição ambiental que a precipitou não tem campo próprio e
frequentemente sequer é conhecida por quem preenche o
documento.
Quatro consequências decorrem disso: a magnitude do
problema é oficialmente nula, o que desloca o tema da agenda
por razão artefatual; a quantificação exige método indireto e
retrospectivo, dependente de microdados consolidados,
disponíveis com defasagem aproximada de um ano, o que exclui
estimativa em tempo real; a atribuição depende inteiramente do
desenho; e, sem contagem oficial, não há linha de base para
avaliar planos de contingência.
Não se propõe que o X30 passe a ser preenchido
rotineiramente, pois a informação não está disponível no
momento do preenchimento. A solução plausível é vincular
rotineiramente as bases de mortalidade a dados meteorológicos
por município e data, tratando a exposição térmica como variável
ambiental a ser cruzada, e não como causa a ser declarada -
tecnicamente viável, uma vez que o SIM registra município e data
de óbito e o INMET mantém rede de estações automáticas com
dados abertos. Essa integração também permitiria o
desenvolvimento e a validação de modelos preditivos de risco
populacional e individual durante futuras ondas de calor.
Delimitação oficial e a área de impacto
A nota técnica lista três estados a partir das estações com
maiores máximas absolutas, e os resultados mostram que essa
lista não corresponde à distribuição do excesso. Dentro dos
estados apontados, os municípios de pico térmico não foram onde
as mortes ocorreram, enquanto as mesorregiões com excesso
robusto são metropolitanas e de baixa altitude -padrão coerente
com estudos que documentam efeito próprio da temperatura
noturna sobre a mortalidade(7) e com o efeito da ilha de calor
urbana sobre as temperaturas mínimas(8). Fora deles, na análise
exploratória post hoc, Santa Catarina apresentou excesso
indistinguível do dos estados nomeados.
A observação não constitui crítica ao INMET, cuja nota é
levantamento meteorológico e não se propõe a delimitar área de
risco à saúde, mas é advertência quanto ao uso desses
documentos: um plano de contingência que adotasse a lista de
três estados como definição de área de risco excluiria Santa
Catarina e priorizaria municípios fronteiriços de baixa densidade,
em detrimento das regiões metropolitanas onde o excesso se
concentrou.
Posição em relação à literatura
Os estudos sobre calor e mortalidade são predominantemente
conduzidos por meio de séries temporais, sendo o Distributed Lag
Non-linear Model o método analítico mais frequentemente
empregado nesse tipo de estudo(1), com o estudo multicêntrico de
Guo et al. entre as principais referências metodológicas da área(3).
Esses desenhos estimam a associação média entre
temperatura e mortalidade ao longo de anos e o fazem bem; sua
contrapartida é diluir os episódios individuais nessa média.
Nenhum desenho é intrinsecamente superior ao outro: ambos
respondem a perguntas epidemiológicas distintas e
complementares.
A abordagem centrada em evento permite descrever a
estrutura de latência, a composição por causa, a distribuição
espacial interna e a correspondência entre área declarada e área
atingida -nenhuma delas obtenível a partir de um risco médio
anual.
Por que um evento isolado
A escolha deste episódio não decorreu de disponibilidade
temporal, mas de reunir simultaneamente características que o
tornam analisável: período delimitado, reconhecimento oficial,
abrangência sobre múltiplas unidades da federação -o que
permite contraste interno entre áreas atingidas e não atingidas- e
magnitude suficiente para motivar avaliação específica.
A isso soma-se um argumento de método: eventos extremos
diferem substancialmente entre si, e uma estimativa agrupada
sobre episódios heterogêneos produz média cuja interpretação
depende de quais eventos entraram na mistura, apagando a
variação relevante para o planejamento.
Analisar cada episódio antes de reunir evidência entre eles
preserva essa variação e permite, depois, examinar o que a
explica. O estudo multi-evento é o desdobramento natural, e nele
a reconstrução da exposição por índice objetivo torna-se
necessária, porque comparar episódios exige critério uniforme.
Limitações do Estudo
A principal limitação é de alcance e decorre do próprio
desenho: as estimativas são específicas deste episódio e
dependem de sua intensidade, duração, estação e da
vulnerabilidade da população naquele momento, não autorizando
extrapolação do RR de 1,077 para ondas de calor em geral, nem
permitindo estimar risco médio anual ou relação exposição-
resposta contínua, que exigem séries plurianuais. A
reprodutibilidade requer replicação em outros episódios, que
diferirão entre si -heterogeneidade que é objeto de investigação,
não ruído.