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Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650057
A mobilização pelo hospital fazia parte de uma luta muito
maior pela transformação do território. A saúde precisava deixar
de chegar apenas quando a doença já estava instalada e passar a
estar presente diariamente na vida das famílias, por meio da
prevenção, do acompanhamento e do cuidado próximo das
comunidades.
Foi nesse processo que a implantação do Programa Saúde da
Família, posteriormente consolidado como Estratégia Saúde da
Família, representou uma mudança importante para o território.
A presença das equipes de saúde nas comunidades aproximou o
serviço público das famílias e fortaleceu a atenção básica, a
prevenção e o acompanhamento dos moradores. Nas grandes
cidades brasileiras, a expansão da Estratégia Saúde da Família
ocorreu de forma desigual, mas modificou a organização da
atenção primária e o acesso aos serviços(8-11).
A construção do Hospital M'Boi Mirim e a expansão da atenção
básica demonstram que as grandes transformações de uma
cidade também nascem da organização popular. Aquele abraço
realizado em 2003 permanece como símbolo de uma comunidade
que decidiu não aceitar a ausência do Estado e mostrou que,
quando a população se organiza e reivindica seus direitos, a
história pode começar a mudar.
Hoje, ao olhar para o território e lembrar daquele dia nublado,
percebo que aquele abraço representava muito mais do que um
gesto simbólico. Era o abraço de uma população inteira em defesa
da vida, da saúde e da dignidade. Uma história construída por
muitas mãos, muitas vozes e, sobretudo, pela esperança de que
o futuro poderia ser diferente.
Participação social e organização da rede de saúde
Nesse processo de estruturação da rede, também ganhou
importância o modelo de Organizações Sociais de Saúde, que
passaram a atuar em parceria com o poder público na gestão e
execução de serviços de saúde. No entanto, esse modelo não
deixou de ser objeto de avalição de representantes da
participação social do território, que fizeram reflexões críticas
sobre o modelo e contribuíram com a sua voz por melhorias na
ampliação e organização da rede do SUS(12).
A importância dessas parcerias dentro da lógica do SUS deve
estar sob o olhar social dos que habitam no território onde as
Organizações Sociais de Saúde operacionalizam seus serviços. O
poder público permanece responsável pela formulação das
políticas, pelo financiamento, pela fiscalização e pela garantia do
direito à saúde, enquanto organizações parceiras podem
participar da gestão e execução de serviços segundo contratos e
diretrizes públicas. A literatura sobre as Organizações Sociais de
Saúde em São Paulo mostra que esse modelo exige regulação,
acompanhamento de resultados e inserção sistêmica na rede
pública(13-14).
É indubitável que a chegada de Organizações Sociais de Saúde
ao nosso território trouxe um grande desafio e, ao mesmo tempo,
uma importante missão: promover saúde e contribuir para fazer
o SUS acontecer em uma região onde, até aquele momento,
grande parte da população tinha pouco acesso aos serviços de
saúde. Era um território marcado por profundas desigualdades
sociais e pela ausência de infraestrutura básica, mas também por
uma comunidade que nunca deixou de lutar e se organizar para
transformar sua realidade.
Na memória do território que sustenta esta reflexão, em 2002
contávamos com apenas seis unidades de saúde. Em 2007, esse
número havia chegado a vinte unidades. Essa ampliação significou
mais equipes, mais profissionais, maior proximidade com as
famílias e a possibilidade de levar o cuidado para lugares onde
antes o acesso era limitado.
Mas os desafios eram enormes. Além da falta de equipamentos
e da precariedade da infraestrutura, enfrentávamos a violência e
a ausência ou insuficiência de saneamento básico. Promover
saúde em um território com essas características significava
compreender que saúde não se faz apenas dentro de uma
unidade, mas também com moradia digna, saneamento,
educação, segurança, alimentação e condições adequadas de
vida.
Ao mesmo tempo, havia uma força que vinha da própria
comunidade. As pessoas se organizavam nas igrejas, nas
associações, nos movimentos sociais e nos espaços comunitários
para reivindicar seus direitos. Um exemplo importante foi a
atuação da Comunidade Santos Mártires, com o Padre Crowe, que
teve papel significativo na organização popular e na defesa das
políticas públicas para a região.
Também começava a ganhar força a participação popular por
meio dos Conselhos Gestores, criando espaços para que os
próprios moradores pudessem acompanhar, discutir e participar
das decisões relacionadas aos serviços de saúde. Estudos
realizados em áreas periféricas de São Paulo, incluindo M'Boi
Mirim, mostram a relação entre trajetórias de mobilização
comunitária e o funcionamento de conselhos locais de saúde, com
efeitos sobre a participação e o debate das políticas públicas(12).
A expansão da rede, a atuação dos profissionais da saúde, a
parceria com instituições sérias e, sobretudo, a organização da
comunidade formaram uma combinação importante para
transformar a realidade da saúde na região. Não foi uma
construção feita de cima para baixo. Foi um processo que
envolveu poder público, trabalhadores da saúde, organizações
sociais, igrejas, lideranças comunitárias e moradores.
Quando olho para essa história, percebo que fazer o SUS
acontecer no território significava muito mais do que abrir
unidades de saúde. Era necessário construir vínculos, conquistar
a confiança das famílias e reconhecer que a população tinha
conhecimento sobre seus próprios problemas e também
capacidade para participar das soluções. A saúde começou, então,
a ser construída junto com a comunidade.
Direitos escritos e direitos vividos no território
Se, no dia 19 de junho de 2003, o céu estava nublado
enquanto a população se unia em um abraço simbólico por um
futuro melhor para a saúde do território, posso afirmar que, em
2026, o tempo clareou. Ou, melhor ainda, o sol passou a iluminar
uma realidade construída ao longo de décadas por meio da
mobilização popular, das políticas públicas, dos trabalhadores da
saúde e das parcerias que ajudaram a fazer o SUS acontecer no
território.
A trajetória da saúde em M'Boi Mirim, demonstra na prática, a
conquista de princípios fundamentais do SUS. Integralidade
significa compreender que o cuidado não termina em uma
consulta, mas envolve prevenção, diagnóstico, tratamento,
reabilitação e promoção da saúde. Equidade significa reconhecer
que territórios historicamente vulnerabilizados precisam de
políticas capazes de enfrentar suas desigualdades. A
descentralização aproxima a gestão dos municípios e dos
territórios, enquanto a participação social permite que a
população seja parte da construção das políticas públicas(5,6).
E se naquele 19 de junho de 2003 o tempo estava nublado,
hoje podemos olhar para o território e enxergar um cenário
diferente. Um exemplo dessa transformação está no Complexo de
Saúde do Jardim Vera Cruz, que reúne diferentes equipamentos e