Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650055
ACESSO ABERTO
Autoria
Eduardo Luna de Oliveira Torres1*
ORCID: https://orcid.org/0009-0007-1938-0153
*Correspondente: eduardo.torres@cejam.org.br
Instituição
¹ Centro de Estudos e Pesquisas Doutor João Amorim (CEJAM),
São Paulo, SP, Brasil.
Como citar este artigo • Direitos autorais©
Torres ELO. Coordenação do Cuidado entre Urgência e Atenção
Primária para Pacientes com Doenças Crônicas. Rev. Tec.
Cient. CEJAM. 2026;5:e202650055. DOI:
https://doi.org/10.59229/2764-9806.RTCC.e202650055.
Editores
Abel Silva de Meneses Editor Chefe
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1632-2672
André Ramalho Editor Científico
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8099-3043
Submetido Aceito
07-07-2026 08-08-2026
Relato de Experiência
Coordenação do Cuidado entre Urgência e Atenção Primária
para Pacientes com Doenças Crônicas
Care Coordination Between Emergency and Primary Health Care for
Patients with Chronic Diseases
Coordinación del Cuidado entre Urgencias y Atención Primaria para
Pacientes con Enfermedades Crónicas
Resumo
Objetivo: Descrever o desenvolvimento de um modelo organizacional de coordenação do
cuidado para pacientes com doenças crônicas descompensadas atendidos em um serviço
público de urgência, visando fortalecer a integração com a Atenção Primária à Saúde e a
continuidade assistencial. Método: Relato de experiência elaborado conforme a diretriz
Standards for Quality Improvement Reporting Excellence (SQUIRE 2.0), desenvolvido em
um pronto-socorro público do Sistema Único de Saúde. O modelo foi construído com base
na análise dos processos assistenciais, na literatura científica e na experiência institucional,
estruturando critérios de elegibilidade, plano de alta, comunicação entre os níveis
assistenciais, monitoramento longitudinal e indicadores. Resultados: O modelo fortalece a
integração entre urgência e Atenção Primária, ampliando o papel dos serviços de urgência
na coordenação do cuidado de pessoas com doenças crônicas e oferecendo estratégia
organizacional potencialmente reproduzível no Sistema Único de Saúde. Conclusão: O
modelo fortalece a integração entre urgência e Atenção Primária, ampliando o papel dos
serviços de urgência na coordenação do cuidado de pessoas com doenças crônicas e
oferecendo estratégia organizacional potencialmente reproduzível no Sistema Único de
Saúde.
Descritores: Coordenação da Assistência ao Paciente; Atenção Primária à Saúde; Doença
Crônica; Serviços Médicos de Emergência; Continuidade da Assistência ao Paciente.
Abstract
Objective: To describe the development of an organizational care coordination model for
patients with decompensated chronic diseases treated in a public emergency care service,
aiming to strengthen integration with Primary Health Care and continuity of care. Method:
An experience report developed in accordance with the Standards for Quality Improvement
Reporting Excellence (SQUIRE 2.0) guidelines in a public emergency care service within the
Brazilian Unified Health System. The model was developed based on the analysis of clinical
workflows, scientific evidence, and institutional experience, incorporating eligibility criteria,
a structured discharge plan, communication between levels of care, longitudinal follow-up,
and performance indicators. Results: The model incorporated care coordination into
emergency care workflows by organizing the identification of eligible patients, structured
discharge planning, integration with Primary Health Care, and continuity of care. It also
established indicators to monitor care performance. Conclusion: The model strengthens
integration between emergency services and Primary Health Care, expanding the role of
emergency care in coordinating care for patients with chronic diseases and providing a
potentially transferable organizational strategy for the Brazilian Unified Health System.
Descriptors: Care Coordination; Primary Health Care; Chronic Disease; Emergency Medical
Services; Continuity of Patient Care.
Resumen
Objetivos: Describir el desarrollo de un modelo organizacional de coordinación del cuidado
para pacientes con enfermedades crónicas descompensadas atendidos en un servicio blico
de urgencias y emergencias, con el fin de fortalecer la integración con la Atención Primaria
de Salud y la continuidad asistencial. Método: Relato de experiencia elaborado conforme a
la guía Standards for Quality Improvement Reporting Excellence (SQUIRE 2.0), desarrollado
en un servicio público de urgencias y emergencias del Sistema Único de Salud de Brasil. El
modelo se desarrolló a partir del análisis de los procesos asistenciales, la evidencia científica
y la experiencia institucional, incorporando criterios de elegibilidad, plan estructurado de
alta, comunicación entre los niveles asistenciales, seguimiento longitudinal e indicadores de
desempeño. Resultados: El modelo incorporó la coordinación del cuidado al flujo asistencial
del servicio de urgencias mediante la identificación de pacientes elegibles, el plan
estructurado de alta, la integración con la Atención Primaria de Salud y el seguimiento de la
continuidad asistencial. Además, estableció indicadores para el monitoreo del desempeño
asistencial. Conclusión: El modelo fortalece la integración entre los servicios de urgencias
y la Atención Primaria de Salud, ampliando el papel de los servicios de urgencias en la
coordinación del cuidado de personas con enfermedades crónicas y ofreciendo una
estrategia organizacional potencialmente transferible para el Sistema Único de Salud de
Brasil.
Descriptores: Coordinación de la Atención al Paciente; Atención Primaria de Salud;
Enfermedad Crónica; Servicios Médicos de Urgencia; Continuidad de la Atención al Paciente.
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INTRODUÇÃO
As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) representam
um dos principais desafios contemporâneos para os sistemas de
saúde em razão de sua elevada prevalência, do impacto sobre a
morbimortalidade e da necessidade de acompanhamento
longitudinal e coordenado na Rede de Atenção à Saúde (RAS)(1,2).
O envelhecimento populacional, a multimorbidade e o aumento
da demanda por cuidados contínuos ampliam a complexidade da
assistência, exigindo modelos organizacionais capazes de integrar
os diferentes pontos de atenção, melhorar os resultados clínicos
e promover maior eficiência assistencial(3,4). Nesse contexto, a
coordenação do cuidado constitui um dos pilares para a
organização dos sistemas de saúde orientados às necessidades da
população(5-7).
No Sistema Único de Saúde (SUS), a Rede de Atenção à Saúde
foi concebida para superar a fragmentação dos serviços por meio
da integração entre os diferentes níveis assistenciais e da
responsabilização compartilhada pelo cuidado(1,8). Nesse modelo,
a Atenção Primária à Saúde (APS) exerce papel central como
coordenadora do cuidado e responsável pelo acompanhamento
longitudinal das pessoas com condições crônicas(9-10). Entretanto,
persistem desafios relacionados à integração entre os pontos de
atenção, à comunicação entre os serviços e à continuidade
assistencial, especialmente após atendimentos em serviços de
urgência e emergência(5-10).
Embora tradicionalmente voltados à estabilização clínica de
episódios agudos, os serviços de urgência atendem grande
número de pacientes com doenças crônicas descompensadas,
como hipertensão arterial, diabetes mellitus e outras condições de
acompanhamento contínuo. Após a alta, muitos retornam ao
domicílio sem mecanismos estruturados de reintegração à
Atenção Primária, favorecendo descontinuidade assistencial,
recorrência de atendimentos e hospitalizações potencialmente
evitáveis(7,10).
Nesse contexto, as transições do cuidado (care transitions)
têm sido reconhecidas como componente essencial da
coordenação assistencial(2,11). A passagem entre diferentes níveis
de atenção representa momento crítico para a continuidade do
cuidado, sendo que estratégias como planos estruturados de alta,
comunicação padronizada entre serviços e acompanhamento
longitudinal demonstram potencial para fortalecer a integração
assistencial e reduzir reinternações evitáveis(2,11-12).
Os princípios do Triple Aim, posteriormente ampliados pelo
Quadruple Aim, e do Value-Based Healthcare reforçam que a
geração de valor depende da capacidade dos sistemas de produzir
melhores resultados clínicos ao longo da trajetória assistencial das
pessoas com condições crônicas(3,4,13). Entretanto, permanecem
escassas as experiências que descrevem modelos organizacionais
capazes de utilizar o atendimento em serviços de urgência como
oportunidade para fortalecer a coordenação do cuidado entre a
urgência e a Atenção Primária, permanecendo a maioria das
iniciativas centrada na resolução do episódio agudo(5-10).
Diante desse cenário, torna-se relevante apresentar
experiências que ampliem o papel dos serviços de urgência como
componentes estratégicos da Rede de Atenção à Saúde,
fortalecendo a integração entre urgência e Atenção Primária e
favorecendo a continuidade do cuidado de pessoas com doenças
crônicas.
MÉTODO
Tipo de estudo
Trata-se de um relato de experiência, elaborado conforme a
diretriz Standards for Quality Improvement Reporting Excellence
(SQUIRE 2.0)(14), da Rede EQUATOR, que descreve o
desenvolvimento de um modelo organizacional voltado ao
fortalecimento da coordenação do cuidado de pacientes com
doenças crônicas descompensadas atendidos em um serviço
público de urgência, favorecendo sua integração com a APS.
Cenário do estudo
A experiência foi desenvolvida em um pronto-socorro público
municipal de porta aberta, integrante da Rede de Atenção às
Urgências do SUS, localizado em Barueri (SP) e gerido por uma
Organização Social de Saúde. A unidade realiza aproximadamente
25.000 atendimentos mensais, incluindo elevada demanda de
pacientes com doenças crônicas descompensadas e necessidade
de acompanhamento longitudinal pela APS.
População beneficiada
O modelo foi desenvolvido para pacientes com doenças
crônicas descompensadas atendidos na unidade de urgência,
especialmente aqueles com hipertensão arterial, diabetes
mellitus, multimorbidade, recorrência de atendimentos ou
necessidade de seguimento longitudinal. Sua estrutura pode ser
adaptada para outras condições clínicas que demandem
integração entre os diferentes níveis da Rede de Atenção à Saúde.
Desenvolvimento do modelo organizacional
O modelo foi construído a partir da análise dos processos
assistenciais, da literatura científica(1-13) e da experiência
institucional, identificando fragilidades na continuidade do
cuidado após a alta da urgência. Foi estruturado em cinco
componentes organizacionais: critérios de elegibilidade; plano
estruturado de alta; comunicação entre os níveis assistenciais;
monitoramento longitudinal; indicadores de processo e resultado.
Fluxo institucional
O fluxo assistencial inicia-se com a identificação dos pacientes
elegíveis durante o atendimento na urgência, seguida da
estratificação clínica, elaboração do plano estruturado de alta,
comunicação com a APS e monitoramento longitudinal por meio
de indicadores, visando fortalecer a integração entre os diferentes
pontos da Rede de Atenção à Saúde.
Indicadores
Foram definidos indicadores de processo e de resultado para
monitorar a implantação do modelo e avaliar sua contribuição
para a coordenação do cuidado, a continuidade assistencial e a
integração entre a urgência e a APS. Os indicadores contemplam
identificação de pacientes elegíveis, elaboração de planos de alta,
comunicação entre os níveis assistenciais, comparecimento à APS,
recorrência de atendimentos e hospitalizações potencialmente
evitáveis.
Aspectos Éticos e de Integridade
A experiência descreve o desenvolvimento de um modelo
organizacional fundamentado em informações institucionais
agregadas, sem utilização de dados clínicos individualizados ou
identificação de pacientes e profissionais. O manuscrito preserva
a confidencialidade das informações assistenciais e foi elaborado
no contexto das atividades institucionais de gestão e melhoria da
qualidade, em conformidade com os princípios éticos aplicáveis à
proteção de dados e à integridade científica.
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RESULTADOS
Desenvolvimento do Modelo Organizacional
Foi desenvolvido um modelo organizacional para fortalecer a
coordenação do cuidado de pacientes com doenças crônicas
descompensadas atendidos em um pronto-socorro público,
estruturando a urgência como ponto estratégico de integração
com a Rede de Atenção à Saúde. O modelo incorpora a
coordenação do cuidado ao fluxo assistencial da unidade,
organizando a identificação dos pacientes elegíveis, a transição
para a Atenção Primária à Saúde e o monitoramento da
continuidade assistencial. A Figura 1 apresenta o fluxo
institucional desenvolvido.
Figura 1 - Modelo organizacional de coordenação do cuidado
entre a urgência e a Atenção Primária à Saúde, Barueri (SP),
Brasil, 2026.
Paciente com doença crônica descompensada
Atendimento e estabilização clínica
Identificação dos critérios de elegibilidade
Estratificação clínica
Plano estruturado de alta
Comunicação com a Atenção Primária
Monitoramento longitudinal
Avaliação por indicadores
Melhoria contínua da Rede de Atenção à Saúde
Fonte: Elaboração própria.
Componentes Organizacionais do Modelo
O modelo foi estruturado em cinco componentes
organizacionais que orientam a coordenação do cuidado entre a
urgência e a Atenção Primária à Saúde, apresentados no Quadro
1.
Quadro 1 - Componentes organizacionais do modelo de
coordenação do cuidado, Barueri (SP), Brasil, 2026.
Componente
Finalidade
Critérios de elegibilidade
Identificar pacientes prioritários para
coordenação do cuidado
Plano estruturado de alta
Organizar o seguimento após estabilização
clínica
Comunicação entre os níveis
assistenciais
Compartilhar informações entre urgência e
APS
Monitoramento longitudinal
Acompanhar a continuidade do cuidado
Indicadores
Avaliar desempenho e melhoria contínua
Fonte: Elaboração própria.
Indicadores de Processo
Foram definidos indicadores de processo e de resultado para
monitorar a implantação do modelo e avaliar sua contribuição
para a coordenação do cuidado, a continuidade assistencial e a
integração entre a urgência e a Atenção Primária à Saúde. Os
indicadores propostos estão apresentados no Quadro 2.
Quadro 2 - Indicadores do modelo organizacional de coordenação
do cuidado, Barueri (SP), Brasil, 2026.
Tipo
Indicador
Objetivo
Processo
Pacientes elegíveis
identificados
Avaliar a capacidade de identificação dos
pacientes prioritários para coordenação do
cuidado.
Processo
Planos estruturados de alta
elaborados
Verificar a adesão ao modelo
organizacional.
Processo
Comunicação com a Atenção
Primária à Saúde
Avaliar a integração entre os diferentes
níveis assistenciais.
Processo
Encaminhamentos
efetivados
Monitorar a continuidade do cuidado após a
alta da urgência.
Resultado
Comparecimento à Atenção
Primária após a alta
Avaliar a continuidade assistencial.
Resultado
Retorno ao serviço de
urgência em 30 dias
Avaliar a recorrência precoce dos
atendimentos.
Resultado
Retorno ao serviço de
urgência em 90 dias
Avaliar a efetividade do acompanhamento
longitudinal.
Resultado
Hospitalizações
potencialmente evitáveis
Avaliar desfechos assistenciais relacionados
às condições crônicas.
Resultado
Continuidade assistencial
Avaliar a integração entre os pontos da
Rede de Atenção à Saúde.
Fonte: Elaboração própria.
Organização do Fluxo Assistencial
O modelo estruturou um fluxo institucional baseado na
identificação dos pacientes elegíveis, estratificação clínica, plano
estruturado de alta, comunicação com a Atenção Primária e
monitoramento longitudinal. Essa organização amplia o papel da
urgência na coordenação do cuidado e estabelece uma estrutura
permanente de avaliação por indicadores, favorecendo a melhoria
contínua dos processos assistenciais.
DISCUSSÃO
O principal achado deste relato foi o desenvolvimento de um
modelo organizacional capaz de incorporar a coordenação do
cuidado ao fluxo assistencial de um serviço público de urgência,
ampliando o papel tradicional desses serviços na Rede de Atenção
à Saúde.
Diferentemente de modelos centrados exclusivamente na
estabilização clínica do episódio agudo, a proposta apresentada
estrutura a urgência como ponto estratégico para identificação de
pacientes com doenças crônicas descompensadas, elaboração de
planos estruturados de alta e articulação com a Atenção Primária
à Saúde. Essa reorganização amplia a capacidade do serviço de
contribuir para a continuidade assistencial e para a redução da
fragmentação do cuidado.
A coordenação do cuidado é reconhecida internacionalmente
como um dos atributos essenciais da Atenção Primária à Saúde e
um dos principais mecanismos para qualificar sistemas
organizados em redes assistenciais(5,7,9-10). Entretanto, sua
efetividade depende da existência de processos formais de
comunicação, compartilhamento de informações e
responsabilização entre os diferentes níveis de atenção.
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O modelo desenvolvido procura responder a essa necessidade
ao estabelecer critérios objetivos de elegibilidade, mecanismos
padronizados de comunicação e monitoramento longitudinal,
favorecendo uma atuação integrada entre urgência e Atenção
Primária. Nesse sentido, a experiência aproxima o serviço de
urgência da lógica das Redes de Atenção à Saúde, reduzindo
barreiras tradicionalmente associadas à fragmentação
assistencial.
Outro aspecto relevante refere-se à continuidade do cuidado
após a alta da urgência. A literatura demonstra que pacientes com
doenças crônicas frequentemente experimentam descontinuidade
assistencial durante a transição entre diferentes serviços,
especialmente quando inexistem planos estruturados de alta ou
comunicação efetiva entre os profissionais envolvidos (7-11). Essas
lacunas favorecem abandono do acompanhamento, utilização
repetitiva dos serviços de urgência e hospitalizações
potencialmente evitáveis. O modelo proposto busca transformar
a alta da urgência em um processo organizado de transição do
cuidado (care transition), no qual a definição do seguimento
assistencial passa a integrar o próprio planejamento terapêutico
realizado durante o atendimento do episódio agudo.
Essa perspectiva dialoga diretamente com os modelos
contemporâneos de care transitions(2,11), amplamente utilizados
em sistemas de saúde orientados pela integração assistencial.
Mais do que a simples transferência administrativa do paciente
entre serviços, a transição do cuidado pressupõe
compartilhamento estruturado das informações clínicas, definição
clara das responsabilidades entre os profissionais e
acompanhamento longitudinal após a alta. Ao incorporar essas
etapas ao fluxo institucional, o modelo fortalece a segurança do
paciente, reduz perdas de informação entre os diferentes pontos
da rede e amplia a capacidade institucional de coordenar
trajetórias assistenciais mais contínuas e resolutivas.
A proposta também apresenta elementos relacionados à
navegação do paciente (patient navigation)(12). Embora
originalmente desenvolvidos para populações oncológicas e
grupos vulneráveis, os modelos de navegação têm sido
progressivamente incorporados ao manejo das doenças crônicas
por favorecerem o acesso oportuno aos serviços, reduzir barreiras
organizacionais e apoiar o paciente durante sua trajetória
assistencial. No modelo aqui descrito, a identificação dos
pacientes elegíveis, a elaboração do plano estruturado de alta e o
monitoramento longitudinal constituem mecanismos
organizacionais que favorecem a navegação do usuário pela Rede
de Atenção à Saúde, contribuindo para maior integração entre os
diferentes níveis assistenciais.
Sob a perspectiva da gestão em saúde, o modelo também se
aproxima dos princípios do Value-Based Healthcare(4,13), ao
deslocar o foco da assistência da resolução isolada do episódio
agudo para a geração de valor ao longo da trajetória do paciente.
A incorporação de indicadores relacionados ao comparecimento à
Atenção Primária, recorrência de atendimentos, hospitalizações
potencialmente evitáveis e continuidade assistencial amplia a
capacidade de avaliar desfechos relevantes para pacientes,
gestores e sistemas de saúde. Dessa forma, a urgência deixa de
ser compreendida apenas como local de resolução imediata das
intercorrências clínicas e passa a integrar estratégias voltadas à
produção de melhores resultados em saúde, utilização mais
eficiente dos recursos e fortalecimento da coordenação do
cuidado.
Embora o modelo tenha sido desenvolvido em uma única
unidade pública de urgência, seus componentes organizacionais
apresentam potencial de adaptação para diferentes contextos do
Sistema Único de Saúde(1,8). Critérios de elegibilidade, planos
estruturados de alta, comunicação padronizada, monitoramento
longitudinal e avaliação por indicadores constituem estratégias
compatíveis com diferentes níveis de complexidade assistencial e
podem ser incorporadas progressivamente por outras instituições
interessadas em fortalecer a integração entre urgência e Atenção
Primária. Essa característica amplia a possibilidade de replicação
da experiência e reforça seu potencial como instrumento de
reorganização dos processos assistenciais.
Por fim, este relato amplia a compreensão sobre o papel
estratégico dos serviços de urgência na Rede de Atenção à
Saúde(1,8) ao demonstrar que esses serviços podem atuar como
importantes dispositivos de coordenação do cuidado(5-7) para
pacientes com doenças crônicas. Ao integrar princípios da Atenção
Primária, das transições do cuidado, da navegação do paciente e
do Value-Based Healthcare(4,13), o modelo apresentado contribui
para reduzir a fragmentação assistencial e oferece uma estratégia
organizacional potencialmente aplicável a outros serviços públicos
de saúde que busquem fortalecer a continuidade do cuidado e a
integração das Redes de Atenção à Saúde.
Limitações do Estudo
Este estudo apresenta limitações inerentes ao delineamento
de relato de experiência e ao caráter organizacional da
intervenção descrita. O modelo foi desenvolvido a partir da
realidade de um único pronto-socorro público municipal, inserido
em contexto específico da Rede de Atenção à Saúde, o que pode
limitar sua transferência direta para instituições com diferentes
características assistenciais, organizacionais e estruturais.
Além disso, o manuscrito descreve o desenvolvimento de um
modelo organizacional e de seus componentes, não contemplando
a avaliação quantitativa de sua implantação ou de seus impactos
sobre indicadores assistenciais e desfechos clínicos. Dessa forma,
embora os indicadores de processo e de resultado tenham sido
definidos para monitorar sua implementação, a efetividade do
modelo deverá ser confirmada em estudos futuros que avaliem
sua aplicação em diferentes contextos organizacionais.
Outra limitação refere-se à complexidade inerente à
coordenação do cuidado, que depende não apenas dos processos
desenvolvidos no serviço de urgência, mas também da capacidade
de articulação entre os diferentes pontos da Rede de Atenção à
Saúde, da disponibilidade de recursos na Atenção Primária, da
comunicação interinstitucional e do engajamento dos profissionais
envolvidos. Esses fatores podem influenciar a implementação e os
resultados do modelo em cenários distintos.
Apesar dessas limitações, a descrição sistematizada do
modelo organizacional, fundamentada em evidências científicas e
alinhada aos princípios da coordenação do cuidado, das Redes de
Atenção à Saúde e da melhoria da qualidade, oferece um
referencial potencialmente aplicável para apoiar iniciativas de
integração assistencial em outros serviços públicos de urgência e
emergência.
Contribuições para a Ciência
Este relato contribui para ampliar a compreensão sobre o
papel estratégico dos serviços de urgência e emergência na
coordenação do cuidado de pessoas com doenças crônicas,
demonstrando que esses serviços podem atuar como
componentes ativos da Rede de Atenção à Saúde e não apenas
como locais destinados ao manejo de episódios agudos.
Ao estruturar um modelo organizacional baseado em critérios
de elegibilidade, plano estruturado de alta, comunicação entre os
níveis assistenciais, monitoramento longitudinal e indicadores de
desempenho, o estudo oferece um referencial sistematizado para
fortalecer a integração entre a urgência e a Atenção Primária à
Saúde.
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O modelo proposto também amplia o diálogo entre os
referenciais da coordenação do cuidado, das transições do cuidado
(care transition), da navegação do paciente (patient navigation)
e da geração de valor em saúde (Value-Based Healthcare),
aproximando conceitos amplamente discutidos na literatura
internacional da realidade organizacional do Sistema Único de
Saúde. Dessa forma, contribui para reduzir a lacuna entre a
produção científica e a implementação prática de estratégias
voltadas à continuidade assistencial e à integração das Redes de
Atenção à Saúde.
Além disso, o estudo disponibiliza uma estrutura
organizacional potencialmente reproduzível em outros serviços
públicos de urgência e emergência, oferecendo subsídios para
gestores, profissionais e pesquisadores interessados na
reorganização dos processos assistenciais, no fortalecimento da
governança em rede e na implementação de modelos de cuidado
centrados nas necessidades das pessoas com condições crônicas.
CONCLUSÃO
O modelo organizacional desenvolvido demonstra que os
serviços públicos de urgência podem exercer papel estratégico na
coordenação do cuidado de pessoas com doenças crônicas,
ampliando sua atuação para além da estabilização clínica do
episódio agudo. Ao incorporar critérios estruturados de
elegibilidade, plano de alta, comunicação entre os diferentes
níveis assistenciais, monitoramento longitudinal e avaliação por
indicadores, o modelo fortalece a integração entre a urgência e a
Atenção Primária à Saúde, favorecendo a continuidade
assistencial e reduzindo a fragmentação do cuidado.
Os resultados evidenciam que a organização de fluxos
institucionais voltados às transições do cuidado permite
transformar a alta da urgência em uma oportunidade para
reorganizar a trajetória assistencial dos pacientes na Rede de
Atenção à Saúde. Dessa forma, a coordenação do cuidado deixa
de ser uma atribuição exclusiva da Atenção Primária e passa a
constituir uma responsabilidade compartilhada entre os diferentes
pontos da rede, fortalecendo a governança clínica e a integração
dos serviços.
Embora o modelo tenha sido desenvolvido em um contexto
específico do Sistema Único de Saúde, seus componentes
organizacionais apresentam potencial de adaptação para
diferentes serviços públicos de urgência e emergência,
respeitando as particularidades locais e os diferentes níveis de
maturidade organizacional. A utilização de indicadores de
processo e de resultado também oferece condições para
monitorar continuamente sua implementação e subsidiar ciclos
permanentes de melhoria da qualidade.
Por fim, este relato reforça que a reorganização dos processos
assistenciais representa uma estratégia viável para fortalecer a
coordenação do cuidado e a continuidade assistencial de pessoas
com doenças crônicas. A experiência apresentada amplia o papel
da urgência na Rede de Atenção à Saúde, oferecendo um modelo
organizacional potencialmente reproduzível para outros serviços
do Sistema Único de Saúde e estabelecendo bases para futuras
avaliações sobre seus impactos nos desfechos clínicos,
organizacionais e na geração de valor em saúde.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
Transparência na contribuição dos autores segundo a
Taxonomia CRediT.
Conceitualização
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Curadoria de dados
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Análise formal
Não aplicável
Aquisição de financiamento
Não aplicável
Investigação
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Metodologia
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Administração do projeto
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Recursos
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Software
Não aplicável
Supervisão
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Validação
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Visualização
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Escrita - esboço original
Eduardo Luna de Oliveira Torres
Escrita - revisão e edição
Eduardo Luna de Oliveira Torres
DECLARAÇÕES
Não aplicável
Não aplicável
Não aplicável
Não aplicável
Não aplicável
Não aplicável
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