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Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650055
O modelo desenvolvido procura responder a essa necessidade
ao estabelecer critérios objetivos de elegibilidade, mecanismos
padronizados de comunicação e monitoramento longitudinal,
favorecendo uma atuação integrada entre urgência e Atenção
Primária. Nesse sentido, a experiência aproxima o serviço de
urgência da lógica das Redes de Atenção à Saúde, reduzindo
barreiras tradicionalmente associadas à fragmentação
assistencial.
Outro aspecto relevante refere-se à continuidade do cuidado
após a alta da urgência. A literatura demonstra que pacientes com
doenças crônicas frequentemente experimentam descontinuidade
assistencial durante a transição entre diferentes serviços,
especialmente quando inexistem planos estruturados de alta ou
comunicação efetiva entre os profissionais envolvidos (7-11). Essas
lacunas favorecem abandono do acompanhamento, utilização
repetitiva dos serviços de urgência e hospitalizações
potencialmente evitáveis. O modelo proposto busca transformar
a alta da urgência em um processo organizado de transição do
cuidado (care transition), no qual a definição do seguimento
assistencial passa a integrar o próprio planejamento terapêutico
realizado durante o atendimento do episódio agudo.
Essa perspectiva dialoga diretamente com os modelos
contemporâneos de care transitions(2,11), amplamente utilizados
em sistemas de saúde orientados pela integração assistencial.
Mais do que a simples transferência administrativa do paciente
entre serviços, a transição do cuidado pressupõe
compartilhamento estruturado das informações clínicas, definição
clara das responsabilidades entre os profissionais e
acompanhamento longitudinal após a alta. Ao incorporar essas
etapas ao fluxo institucional, o modelo fortalece a segurança do
paciente, reduz perdas de informação entre os diferentes pontos
da rede e amplia a capacidade institucional de coordenar
trajetórias assistenciais mais contínuas e resolutivas.
A proposta também apresenta elementos relacionados à
navegação do paciente (patient navigation)(12). Embora
originalmente desenvolvidos para populações oncológicas e
grupos vulneráveis, os modelos de navegação têm sido
progressivamente incorporados ao manejo das doenças crônicas
por favorecerem o acesso oportuno aos serviços, reduzir barreiras
organizacionais e apoiar o paciente durante sua trajetória
assistencial. No modelo aqui descrito, a identificação dos
pacientes elegíveis, a elaboração do plano estruturado de alta e o
monitoramento longitudinal constituem mecanismos
organizacionais que favorecem a navegação do usuário pela Rede
de Atenção à Saúde, contribuindo para maior integração entre os
diferentes níveis assistenciais.
Sob a perspectiva da gestão em saúde, o modelo também se
aproxima dos princípios do Value-Based Healthcare(4,13), ao
deslocar o foco da assistência da resolução isolada do episódio
agudo para a geração de valor ao longo da trajetória do paciente.
A incorporação de indicadores relacionados ao comparecimento à
Atenção Primária, recorrência de atendimentos, hospitalizações
potencialmente evitáveis e continuidade assistencial amplia a
capacidade de avaliar desfechos relevantes para pacientes,
gestores e sistemas de saúde. Dessa forma, a urgência deixa de
ser compreendida apenas como local de resolução imediata das
intercorrências clínicas e passa a integrar estratégias voltadas à
produção de melhores resultados em saúde, utilização mais
eficiente dos recursos e fortalecimento da coordenação do
cuidado.
Embora o modelo tenha sido desenvolvido em uma única
unidade pública de urgência, seus componentes organizacionais
apresentam potencial de adaptação para diferentes contextos do
Sistema Único de Saúde(1,8). Critérios de elegibilidade, planos
estruturados de alta, comunicação padronizada, monitoramento
longitudinal e avaliação por indicadores constituem estratégias
compatíveis com diferentes níveis de complexidade assistencial e
podem ser incorporadas progressivamente por outras instituições
interessadas em fortalecer a integração entre urgência e Atenção
Primária. Essa característica amplia a possibilidade de replicação
da experiência e reforça seu potencial como instrumento de
reorganização dos processos assistenciais.
Por fim, este relato amplia a compreensão sobre o papel
estratégico dos serviços de urgência na Rede de Atenção à
Saúde(1,8) ao demonstrar que esses serviços podem atuar como
importantes dispositivos de coordenação do cuidado(5-7) para
pacientes com doenças crônicas. Ao integrar princípios da Atenção
Primária, das transições do cuidado, da navegação do paciente e
do Value-Based Healthcare(4,13), o modelo apresentado contribui
para reduzir a fragmentação assistencial e oferece uma estratégia
organizacional potencialmente aplicável a outros serviços públicos
de saúde que busquem fortalecer a continuidade do cuidado e a
integração das Redes de Atenção à Saúde.
Limitações do Estudo
Este estudo apresenta limitações inerentes ao delineamento
de relato de experiência e ao caráter organizacional da
intervenção descrita. O modelo foi desenvolvido a partir da
realidade de um único pronto-socorro público municipal, inserido
em contexto específico da Rede de Atenção à Saúde, o que pode
limitar sua transferência direta para instituições com diferentes
características assistenciais, organizacionais e estruturais.
Além disso, o manuscrito descreve o desenvolvimento de um
modelo organizacional e de seus componentes, não contemplando
a avaliação quantitativa de sua implantação ou de seus impactos
sobre indicadores assistenciais e desfechos clínicos. Dessa forma,
embora os indicadores de processo e de resultado tenham sido
definidos para monitorar sua implementação, a efetividade do
modelo deverá ser confirmada em estudos futuros que avaliem
sua aplicação em diferentes contextos organizacionais.
Outra limitação refere-se à complexidade inerente à
coordenação do cuidado, que depende não apenas dos processos
desenvolvidos no serviço de urgência, mas também da capacidade
de articulação entre os diferentes pontos da Rede de Atenção à
Saúde, da disponibilidade de recursos na Atenção Primária, da
comunicação interinstitucional e do engajamento dos profissionais
envolvidos. Esses fatores podem influenciar a implementação e os
resultados do modelo em cenários distintos.
Apesar dessas limitações, a descrição sistematizada do
modelo organizacional, fundamentada em evidências científicas e
alinhada aos princípios da coordenação do cuidado, das Redes de
Atenção à Saúde e da melhoria da qualidade, oferece um
referencial potencialmente aplicável para apoiar iniciativas de
integração assistencial em outros serviços públicos de urgência e
emergência.
Contribuições para a Ciência
Este relato contribui para ampliar a compreensão sobre o
papel estratégico dos serviços de urgência e emergência na
coordenação do cuidado de pessoas com doenças crônicas,
demonstrando que esses serviços podem atuar como
componentes ativos da Rede de Atenção à Saúde e não apenas
como locais destinados ao manejo de episódios agudos.
Ao estruturar um modelo organizacional baseado em critérios
de elegibilidade, plano estruturado de alta, comunicação entre os
níveis assistenciais, monitoramento longitudinal e indicadores de
desempenho, o estudo oferece um referencial sistematizado para
fortalecer a integração entre a urgência e a Atenção Primária à
Saúde.