Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650051
ACESSO ABERTO
Autoria
Daniela Neves da Silva1*
ORCID: https://orcid.org/0009-0001-0129-9118
Claudia Regina Graziano de Moraes e Abreu1
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0654-663X
Lívia Kondrat Pinto Kanashiro1
ORCID: https://orcid.org/0009-0000-7357-4353
*Correspondente: danielaneves.psicologa@gmail.com
Instituição
¹Secretaria Municipal de Saúde, São Paulo, SP, Brasil.
Como citar este artigo • Direitos autorais©
Silva DN, Abreu CRGM, Kanashiro LKP. Impacto do Luto na
Equipe de Cuidado da Unidade de Terapia Intensiva de um
Hospital Público. Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650051.
DOI: https://doi.org/10.59229/2764-9806.RTCC.e202650051.
Editores
Abel Silva de Meneses Editor Chefe
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1632-2672
André Ramalho Editor Científico
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8099-3043
Submetido Aceito
07-01-2026 17-03-2026
Artigo Original
Impacto do Luto na Equipe de Cuidado da Unidade de
Terapia Intensiva de um Hospital Público
The Impact of Bereavement on the Care Team in the Intensive Care
Unit of a Public Hospital
El Impacto del Aflicción en el Equipo de Atención de la Unidad de
Cuidados Intensivos de un Hospital Público
Resumo
Objetivo: Analisar as vivências dos profissionais de saúde diante da perda de um paciente,
investigando como elaboram o luto, se esse processo é reconhecido ou não reconhecido
institucionalmente, e o impacto emocional da perda na equipe que atua na Unidade de
Terapia Intensiva (UTI). Método: Estudo qualitativo, de campo, realizado com profissionais
de saúde da UTI adulto do Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha, por meio
de entrevistas semiestruturadas. Os dados foram analisados à luz da Análise de Discurso,
respeitando rigorosamente os princípios éticos da pesquisa com seres humanos.
Resultados: Os achados evidenciam que o luto dos profissionais se apresenta como
experiência emocional complexa, frequentemente silenciosa e invisibilizada culturalmente,
sendo intensificada pelos vínculos estabelecidos com os pacientes. As narrativas revelam
sofrimento psíquico e estratégias individuais de enfrentamento diante da perda. Conclusão:
Destaca-se a necessidade de reconhecer e legitimar o sofrimento emocional dos
profissionais de saúde da UTI, fortalecendo práticas institucionais de acolhimento e cuidado
com a saúde mental.
Descritores: Luto; Equipe de Assistência ao Paciente; Unidades de Terapia Intensiva;
Adulto; Psicologia Hospitalar.
Abstract
Objective: To analyze the experiences of healthcare professionals in the face of a patient’s
death, investigating how they cope with grief, whether this process is institutionally
recognized or not, and the emotional impact of the loss on the staff working in the Intensive
Care Unit (ICU). Method: A qualitative, field study conducted with healthcare professionals
in the adult ICU at Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha Municipal Hospital, using semi-
structured interviews. The data were analyzed using Discourse Analysis, strictly adhering to
the ethical principles of research involving human subjects. Results: The findings show that
the professionals’ grief manifests as a complex emotional experience, often silent and
culturally invisible, intensified by the bonds formed with patients. The narratives reveal
psychological distress and individual coping strategies in the face of loss. Conclusion: We
emphasize the need to recognize and legitimize the emotional distress of ICU healthcare
professionals, strengthening institutional practices of support and mental health care.
Descriptors: Bereavement; Patient Care Team; Intensive Care Units; Adult; Psychology,
Medical.
Resumen
Objetivos: Analizar las experiencias de los profesionales de la salud ante la pérdida de un
paciente, investigando cómo elaboran el duelo, si este proceso es reconocido o no a nivel
institucional, y el impacto emocional de la pérdida en el equipo que trabaja en la Unidad de
Cuidados Intensivos (UCI). Método: Estudio cualitativo de campo, realizado con
profesionales de la salud de la UCI para adultos del Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro
Pires da Rocha, mediante entrevistas semiestructuradas. Los datos se analizaron a la luz del
Análisis del Discurso, respetando rigurosamente los principios éticos de la investigación con
seres humanos. Resultados: Los hallazgos evidencian que el duelo de los profesionales se
presenta como una experiencia emocional compleja, a menudo silenciosa e invisibilizada
culturalmente, que se intensifica por los vínculos establecidos con los pacientes. Las
narrativas revelan sufrimiento psíquico y estrategias individuales de afrontamiento ante la
pérdida. Conclusión: Se destaca la necesidad de reconocer y legitimar el sufrimiento
emocional de los profesionales de la salud de la UCI, fortaleciendo las prácticas
institucionales de acogida y atención a la salud mental.
Descriptores: Aflicción; Grupo de Atención al Paciente; Unidades de Cuidados Intensivos;
Adulto; Psicología Médica.
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INTRODUÇÃO
A Organização Mundial da Saúde (OMS) compreende a saúde
como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e
não apenas como ausência de doença, o que implica a
necessidade de uma abordagem ampliada e integral no cuidado
em saúde(1). Essa perspectiva reforça que os profissionais de
saúde devem considerar, além dos aspectos biológicos, as
dimensões emocionais, sociais e simbólicas que atravessam os
processos de adoecimento, cuidado e morte.
Na sociedade contemporânea, o hospital consolidou-se como
o principal espaço de cuidado, inclusive para pacientes em fase
final de vida, o que torna a morte e a terminalidade experiências
recorrentes no cotidiano institucional(2).
Estudos apontam que os cuidados paliativos no hospital geral
evidenciam tensões entre a lógica tecnicista e a necessidade de
um cuidado integral, que reconheça o sofrimento humano e a
experiência social da morte(2-3). Nesse contexto, o processo de
morrer adquire relevância não apenas clínica, mas também ética,
emocional e relacional.
As Unidades de Terapia Intensiva (UTI) configuram-se como
espaços de alta complexidade assistencial, destinados ao cuidado
de pacientes em estado crítico, que demandam monitoramento
contínuo e suporte tecnológico avançado(4). Os avanços
tecnológicos ampliaram a definição de morte e prolongaram o
processo de terminalidade, gerando dilemas éticos relacionados à
limitação ou intensificação de intervenções terapêuticas(3,5-6). A
tensão entre a manutenção da vida e a inevitabilidade da morte
impõe desafios significativos às equipes multiprofissionais que
atuam nesses ambientes.
Nesse cenário, o luto apresenta-se como uma experiência
intrínseca ao contexto da UTI, uma vez que profissionais,
pacientes e familiares convivem cotidianamente com a perda(7). O
luto diz respeito à ruptura de vínculos significativos e constitui um
processo natural de elaboração psíquica diante da perda, cuja
intensidade está diretamente relacionada ao investimento afetivo
estabelecido(8-9). No entanto, quando vivido pelos profissionais de
saúde, esse luto frequentemente não encontra reconhecimento
social ou institucional, caracterizando-se como um luto não
reconhecido(8).
Estudos evidenciam que a exposição contínua à morte pode
produzir sofrimento psíquico, desgaste emocional e sentimento de
impotência entre os trabalhadores da saúde(10-12). Muitos
profissionais adotam estratégias defensivas, como o
distanciamento emocional, em virtude da ausência de espaços
institucionais que favoreçam a expressão e a elaboração do
luto(8,10,13). Esse silenciamento tende a intensificar o adoecimento
psíquico e comprometer a qualidade do cuidado prestado.
Apesar disso, o vínculo estabelecido entre profissional e
paciente permanece como elemento central da prática
assistencial. Fundamentado em relações de confiança, empatia e
corresponsabilização, esse vínculo ultrapassa a dimensão técnica
e assume valor terapêutico(14-17). A literatura aponta que a relação
profissionalpaciente é influenciada por processos de apego e que
a ruptura desse vínculo, diante da morte, pode impactar
profundamente o profissional(16).
A formação acadêmica tradicional, ainda centrada em modelos
mecanicistas e curativos, frequentemente não prepara
adequadamente os profissionais para lidar com a finitude da vida,
contribuindo para a percepção da morte como fracasso
terapêutico(8,10,18). Diante disso, autores destacam a importância
da humanização do cuidado e da implementação de estratégias
institucionais de apoio psicológico, supervisão e educação
permanente, que favoreçam o enfrentamento ético e emocional
da morte e do luto no contexto hospitalar(6,10,15).
Nesse sentido, compreender as vivências dos profissionais de
saúde frente à perda de pacientes em UTI torna-se fundamental
para analisar como se constituem os vínculos afetivos, como o
luto é vivido e reconhecido, ou silenciado, no ambiente
institucional, bem como os impactos emocionais dessa
experiência sobre aqueles que cuidam.
O estudo teve como objetivo analisar as vivências de
profissionais de saúde diante da perda de um paciente no contexto
da UTI.
MÉTODO
Desenho, Período e Cenário
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa,
desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação Lato
Sensu, na modalidade de Residência Multiprofissional em Atenção
à Terapia Intensiva, realizado de junho a julho de 2025 na
Unidade Executora Hospital Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha.
A abordagem qualitativa foi adotada por permitir a apreensão
dos significados, valores, crenças e sentidos atribuídos pelos
participantes às experiências vividas, reconhecendo a
centralidade da subjetividade na compreensão dos fenômenos
sociais e institucionais. Esse tipo de investigação exige rigor
analítico, coerência metodológica e compromisso ético ao longo
de todo o processo investigativo(19).
População e Critérios de Inclusão e Exclusão
O estudo envolveu cinco pessoas para participação em
entrevistas semiestruturadas, orientadas por perguntas
norteadoras. Essa técnica possibilita flexibilidade na interação e
favorece a expressão aprofundada dos participantes, mantendo
alinhamento com os objetivos do estudo.
Os critérios de inclusão envolveram profissionais de nível
superior e técnico que lidam diretamente com os pacientes, que
passam no mínimo o plantão de 12h no setor de UTI, e que atuam
pelo menos dois anos, visando um período de vivência e
formação como intensivista.
os critérios de exclusão contaram com os profissionais de
nível superior e cnico que não atuam diretamente com os
pacientes ou não passam um período mínimo de 12h no setor da
UTI adulto, bem como os residentes do setor.
Procedimento de Coleta de Dados
A coleta de dados ocorreu de forma presencial, nas
dependências da UTI adulto da instituição campo do estudo, no
período de 17 de junho de 2025 a 24 de junho de 2025, em
ambiente reservado e com tratamento acústico, garantindo
privacidade e confidencialidade aos participantes.
As entrevistas foram conduzidas pela própria pesquisadora,
responsável pelo estudo, assegurando a padronização do
procedimento de coleta e a observância dos princípios éticos que
orientam a pesquisa qualitativa.
A condução das entrevistas baseou-se em uma postura ética
e não diretiva, priorizando a escuta sensível das narrativas dos
participantes e favorecendo a livre expressão de suas vivências,
respeitando o ritmo, os silêncios e as singularidades do discurso
produzido no encontro entre pesquisadora e entrevistado.
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As entrevistas ocorreram de forma individual, foram gravadas,
mediante consentimento prévio dos participantes, e seguiram um
roteiro de entrevista semiestruturada, previamente elaborado e
coerente com os objetivos da pesquisa. Esse formato possibilitou
a abordagem dos temas centrais propostos, sem restringir a
emergência de novos conteúdos ou o aprofundamento de
aspectos considerados relevantes ao longo da interação.
A escolha da entrevista semiestruturada fundamenta-se em
perspectivas que valorizam a interpretação dos sentidos
produzidos no discurso, a dimensão interacional da linguagem e
a complexidade inerente às pesquisas qualitativas(19-20). A
participação dos profissionais ocorreu de forma voluntária,
mediante aceite do convite.
Análise dos Dados
O material empírico foi analisado segundo a abordagem
qualitativa proposta por Minayo(19), privilegiando a interpretação
dos significados atribuídos às experiências relatadas,
compreendidos no entrelaçamento entre subjetividade, contexto
sociocultural e trajetória histórica.
A análise dialogou ainda com os pressupostos da Análise de
Discurso, conforme Orlandi(20), utilizada como referencial teórico-
analítico para a compreensão da linguagem como prática social e
histórica, na qual os sentidos são produzidos nas condições de
enunciação.
A pesquisa bibliográfica foi realizada em bases de dados
nacionais e internacionais, como PubMed/Medline e Biblioteca
Virtual em Saúde, bem como em documentos institucionais e
livros da literatura nacional, com o objetivo de subsidiar a
fundamentação teórica e a análise dos dados.
Aspectos Ética e de Integridade
O projeto de pesquisa foi submetido à avaliação do Comitê de
Ética em Pesquisas do Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro
Pires da Rocha (Hospital Municipal do Campo Limpo) mediante
Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE)
88395725.3.0000.5452, sob o número do parecer 7.631.752.
Em relação à coleta de dados, primeiramente foram
apresentados os propósitos e o cuidado ético da pesquisa. E a
participação no estudo foi voluntária e formalizada através da
assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE), conforme preconiza a Resolução 466 de 12 de dezembro
de 2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS)
Todo o material empírico, arquivos sonoros e transcrições das
entrevistas, foi posteriormente transcrito em formato digital e
armazenado em mídia encriptada, de modo a assegurar o sigilo e
a confidencialidade das informações.
Com a finalidade de manter o sigilo em relação à identificação
dos participantes, foram indicados através de nomes utilizados na
mitologia africana como, por exemplo, Iorubá.
RESULTADOS
A análise dos discursos permitiu a identificação de dez núcleos
de sentido que expressam as vivências dos profissionais de saúde
frente à morte e ao luto no contexto da UTI.
Embora o luto não tenha sido tema direto das questões
norteadoras, ele emerge de forma transversal, revelando-se tanto
no conteúdo expresso quanto nos silenciamentos e deslocamentos
discursivos.
Núcleo 1 A UTI como espaço de construção do perfil
profissional e da carreira
A UTI é significada como ambiente de formação técnica e
consolidação profissional, no qual a morte se apresenta
como efeito de sentido constante, atravessando os discursos
mesmo quando não explicitamente nomeada, configurando
posicionamentos subjetivos frente à terminalidade.
Núcleo 2 A morte como presença implícita no cotidiano
da prática assistencial
A morte aparece como elemento estruturante do trabalho,
manifestando-se nos silêncios e nas entrelinhas do discurso,
revelando a forma como os profissionais se posicionam
diante dos limites da técnica e do cuidado.
Núcleo 3 O luto como experiência emocional que
ultrapassa a lógica técnica
Os discursos revelam o luto como vivência complexa,
marcada por tristeza, impotência e contenção emocional,
rompendo com a expectativa social de neutralidade afetiva
do profissional de saúde.
Núcleo 4 A espiritualidade como recurso simbólico de
elaboração do sofrimento
A fé surge como estratégia subjetiva para lidar com a perda,
especialmente em situações envolvendo pacientes jovens ou
mortes violentas, funcionando como suporte para atribuição
de sentido à finitude.
Núcleo 5 A perda como mobilizadora de vínculos afetivos
e elaboração psíquica
A morte de pacientes com quem se estabelece vínculo
convoca os profissionais à elaboração emocional da perda,
evidenciando dor, frustração e reflexões sobre a própria
finitude.
Núcleo 6 A identificação subjetiva com o paciente e a
intensificação do sofrimento
Os relatos indicam que a identificação com a história do
paciente amplia o impacto emocional da perda, revelando
envolvimento afetivo, surpresa e impotência diante de
desfechos inesperados.
Núcleo 7 O enfrentamento desafiador das repercussões
emocionais da morte
A comunicação do óbito, o sofrimento levado para fora do
ambiente de trabalho e a exigência de controle emocional
evidenciam a dificuldade de lidar com o luto no cotidiano
institucional.
Núcleo 8 A ausência de espaços institucionais para a
elaboração coletiva do luto
Os discursos apontam para a invisibilidade do sofrimento
profissional, marcado pelo silenciamento institucional e pela
expectativa de resiliência permanente diante das perdas
sucessivas.
Núcleo 9 O luto como processo silencioso, singular e
simbólico
O luto manifesta-se de forma íntima e pouco verbalizada,
evidenciado por pausas, hesitações e substituições
linguísticas, refletindo o peso simbólico da nomeação da
perda.
Núcleo 10 O vínculo como elemento estruturante do
cuidado e legitimador do luto
A construção do vínculo profissionalpaciente emerge como
aspecto central da qualidade do cuidado, legitimando o luto
como parte constitutiva da prática assistencial e
reafirmando que cuidar implica ser afetado.
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DISCUSÃO
A análise das entrevistas, fundamentada na Análise de
Discurso, possibilitou compreender como os profissionais de
saúde constroem sentidos sobre a morte, o luto e o cuidado no
contexto da UTI. Parte-se do pressuposto de que o discurso não
se restringe ao conteúdo explícito das falas, mas se produz nas
condições históricas, sociais e institucionais nas quais os sujeitos
estão inseridos, sendo atravessado por silenciamentos,
contradições e regularidades discursivas(20).
Observou-se que a UTI é discursivamente significada como um
espaço de alta complexidade técnica, marcado por
responsabilidade, vigilância constante e pressão por resultados.
Os profissionais associam o setor à ideia de desafio e
competência, enfatizando o domínio técnico e o uso intensivo da
tecnologia no cuidado(4). No entanto, mesmo quando o discurso
se organiza em torno de protocolos e procedimentos, a morte
emerge de forma transversal, revelando a tensão permanente
entre o investimento terapêutico e a possibilidade da perda(3,6).
Nos relatos analisados, a morte é frequentemente significada
como fracasso terapêutico, sobretudo quando ocorre apesar dos
recursos tecnológicos disponíveis. Esse sentido reflete uma
formação profissional ainda orientada pela lógica curativista, que
privilegia a preservação da vida e dificulta a elaboração simbólica
da finitude(8,18). Como efeito discursivo, observa-se o
silenciamento das emoções e a adoção de estratégias de
distanciamento afetivo como formas de defesa frente ao
sofrimento(10-11).
Apesar desse contexto, o vínculo entre profissional e paciente
emerge como elemento estruturante do cuidado. Mesmo em um
ambiente altamente técnico, os discursos revelam a construção
de laços afetivos sustentados pela convivência cotidiana, pela
escuta e pela atenção contínua às necessidades do outro(15-17). À
luz da teoria do apego, tais vínculos podem ser compreendidos
como resultado de interações sensíveis e responsivas, que
produzem confiança e segurança emocional(14). A ruptura desses
laços, diante da morte do paciente, intensifica o impacto
emocional da perda para o profissional.
O luto aparece, entretanto, de forma indireta e muitas vezes
não nomeada. Embora sentimentos como tristeza, impotência e
vazio sejam mencionados, essas experiências raramente são
reconhecidas institucionalmente como luto legítimo(8). Tal
configuração caracteriza o luto não reconhecido, no qual o
sofrimento psíquico é vivenciado de maneira solitária, sem
espaços formais de acolhimento e elaboração(7-8).
Esse silenciamento institucional contribui para o desgaste
emocional e o adoecimento psíquico dos profissionais de saúde. A
literatura aponta que a ausência de dispositivos de apoio favorece
a cronificação do sofrimento e reforça estratégias defensivas que
podem comprometer tanto a saúde do trabalhador quanto a
qualidade da assistência(10-12). A análise evidenciou que, mesmo
quando o impacto emocional é reconhecido pelos próprios
sujeitos, ele tende a ser minimizado em função da exigência de
manter o funcionamento do serviço.
Outro núcleo de sentido identificado refere-se à insuficiência
de preparo para lidar com a morte no processo de formação
profissional. Os discursos indicam que a educação em saúde
privilegia conteúdos técnicos, relegando a segundo plano
discussões sobre terminalidade, luto e sofrimento humano(8,10).
Essa lacuna formativa contribui para a percepção da morte como
evento perturbador e para a naturalização da dor como parte
inerente do trabalho, dificultando sua elaboração simbólica(8).
Por fim, os achados apontam para a necessidade de uma
política de humanização que inclua também os profissionais de
saúde. A literatura destaca que a criação de espaços de escuta,
supervisão e apoio psicológico no ambiente hospitalar pode
favorecer a elaboração do luto e fortalecer práticas mais éticas e
sensíveis diante da finitude(6,10,15). Reconhecer o sofrimento da
equipe não fragiliza o cuidado, mas o qualifica, ao possibilitar
relações mais empáticas e responsáveis até o final da vida.
Dessa forma, a análise evidencia que os sentidos atribuídos à
morte e ao luto na UTI se produzem em um campo de tensões
entre técnica, ética e subjetividade. Compreender essas
construções discursivas permite visibilizar o sofrimento silenciado
dos profissionais e reforça a importância de políticas institucionais
que reconheçam o luto como dimensão constitutiva do trabalho
em saúde.
Limitações do Estudo
Destaca-se o número reduzido de participantes (n=5) e a
realização do estudo em um único contexto institucional, o que
limita a generalização dos achados.
Contribuições do Estudo
O estudo contribui ao evidenciar a necessidade de incorporar
a discussão sobre o luto dos profissionais de saúde nas práticas
institucionais, ampliando o cuidado em saúde para incluir a
dimensão subjetiva do trabalhador.
CONCLUSÃO
O presente estudo evidenciou a complexidade do luto
vivenciado por profissionais de saúde que atuam em UTI, um
contexto atravessado pela presença constante da morte e por
intensas demandas emocionais. A compreensão das vivências
mostrou-se fundamental para visibilizar o sofrimento desses
profissionais, valorizar os vínculos estabelecidos com pacientes e
familiares e reconhecer estratégias de enfrentamento que
articulam técnica e subjetividade, contribuindo para práticas de
cuidado mais humanizadas.
Os achados indicam que, embora a morte seja inerente ao
trabalho em UTI, o luto profissional permanece frequentemente
invisibilizado e pouco legitimado nos contextos institucionais. As
experiências relatadas revelam manifestações intensas, porém
silenciosas, marcadas por mecanismos de contenção emocional,
racionalização e negação. Ainda assim, o vínculo com pacientes e
familiares emerge como elemento central de sustentação
emocional, permitindo que a perda seja sentida e, em alguns
casos, ressignificada.
Observou-se que recursos como a comunicação empática, a
escuta sensível, a espiritualidade, o autocuidado e o suporte
terapêutico são mobilizados pelos profissionais como formas de
enfrentar o sofrimento. No entanto, tais estratégias ocorrem
predominantemente de maneira individual, evidenciando a
ausência de dispositivos institucionais estruturados para o
acolhimento do luto daqueles que cuidam.
A análise também revelou que a cultura institucional da UTI
impõe barreiras simbólicas à expressão do sofrimento,
sustentando a expectativa de neutralidade emocional como ideal
profissional. Entretanto, os discursos demonstram que
reconhecer, sentir e elaborar a perda não fragiliza o cuidado, mas
o humaniza, possibilitando maior sustentabilidade emocional e
ética no exercício profissional.
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Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650051
Em síntese, o estudo contribui para afirmar que o luto
profissional não se limita à vivência da perda, mas se articula à
identidade profissional, aos vínculos afetivos e à subjetividade do
cuidador. Evidencia-se, assim, a necessidade de que as
instituições de saúde reconheçam e legitimem o sofrimento
emocional das equipes, oferecendo espaços de escuta,
acolhimento e suporte psicológico. Compreender o luto como
experiência ética, afetiva e relacional permite ressignificar a
prática assistencial, reafirmando o cuidado à vida e à finitude
como dimensões indissociáveis do trabalho em saúde.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
Transparência na contribuição dos autores segundo a
Taxonomia CRediT.
Conceitualização
Daniela Neves da Silva
Curadoria de dados
Daniela Neves da Silva
Análise formal
Daniela Neves da Silva; Claudia Regina Graziano de
Moraes e Abreu
Aquisição de financiamento
Não aplicável
Investigação
Daniela Neves da Silva
Metodologia
Daniela Neves da Silva; Claudia Regina Graziano de
Moraes e Abreu; Lívia Kondrat Pinto Kanashiro
Administração do projeto
Daniela Neves da Silva; Claudia Regina Graziano de
Moraes e Abreu; Lívia Kondrat Pinto Kanashiro
Recursos
Daniela Neves da Silva; Claudia Regina Graziano de
Moraes e Abreu; Lívia Kondrat Pinto Kanashiro
Software
Não aplicável
Supervisão
Claudia Regina Graziano de Moraes e Abreu; Lívia
Kondrat Pinto Kanashiro
Validação
Daniela Neves da Silva; Claudia Regina Graziano de
Moraes e Abreu; Lívia Kondrat Pinto Kanashiro
Visualização
Daniela Neves da Silva
Escrita - esboço original
Daniela Neves da Silva
Escrita - revisão e edição
Daniela Neves da Silva
DECLARAÇÕES
Conflitos de interesse
Não aplicável
Financiamento
Não aplicável
Aprovação ética
Certificado de Apresentação de Apreciação Ética
(CAAE) 88395725.3.0000.5452
Agradecimentos
Não aplicável
Preprint
Não aplicável
Inteligência Artificial
Não aplicável
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