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Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650051
INTRODUÇÃO
A Organização Mundial da Saúde (OMS) compreende a saúde
como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e
não apenas como ausência de doença, o que implica a
necessidade de uma abordagem ampliada e integral no cuidado
em saúde(1). Essa perspectiva reforça que os profissionais de
saúde devem considerar, além dos aspectos biológicos, as
dimensões emocionais, sociais e simbólicas que atravessam os
processos de adoecimento, cuidado e morte.
Na sociedade contemporânea, o hospital consolidou-se como
o principal espaço de cuidado, inclusive para pacientes em fase
final de vida, o que torna a morte e a terminalidade experiências
recorrentes no cotidiano institucional(2).
Estudos apontam que os cuidados paliativos no hospital geral
evidenciam tensões entre a lógica tecnicista e a necessidade de
um cuidado integral, que reconheça o sofrimento humano e a
experiência social da morte(2-3). Nesse contexto, o processo de
morrer adquire relevância não apenas clínica, mas também ética,
emocional e relacional.
As Unidades de Terapia Intensiva (UTI) configuram-se como
espaços de alta complexidade assistencial, destinados ao cuidado
de pacientes em estado crítico, que demandam monitoramento
contínuo e suporte tecnológico avançado(4). Os avanços
tecnológicos ampliaram a definição de morte e prolongaram o
processo de terminalidade, gerando dilemas éticos relacionados à
limitação ou intensificação de intervenções terapêuticas(3,5-6). A
tensão entre a manutenção da vida e a inevitabilidade da morte
impõe desafios significativos às equipes multiprofissionais que
atuam nesses ambientes.
Nesse cenário, o luto apresenta-se como uma experiência
intrínseca ao contexto da UTI, uma vez que profissionais,
pacientes e familiares convivem cotidianamente com a perda(7). O
luto diz respeito à ruptura de vínculos significativos e constitui um
processo natural de elaboração psíquica diante da perda, cuja
intensidade está diretamente relacionada ao investimento afetivo
estabelecido(8-9). No entanto, quando vivido pelos profissionais de
saúde, esse luto frequentemente não encontra reconhecimento
social ou institucional, caracterizando-se como um luto não
reconhecido(8).
Estudos evidenciam que a exposição contínua à morte pode
produzir sofrimento psíquico, desgaste emocional e sentimento de
impotência entre os trabalhadores da saúde(10-12). Muitos
profissionais adotam estratégias defensivas, como o
distanciamento emocional, em virtude da ausência de espaços
institucionais que favoreçam a expressão e a elaboração do
luto(8,10,13). Esse silenciamento tende a intensificar o adoecimento
psíquico e comprometer a qualidade do cuidado prestado.
Apesar disso, o vínculo estabelecido entre profissional e
paciente permanece como elemento central da prática
assistencial. Fundamentado em relações de confiança, empatia e
corresponsabilização, esse vínculo ultrapassa a dimensão técnica
e assume valor terapêutico(14-17). A literatura aponta que a relação
profissional–paciente é influenciada por processos de apego e que
a ruptura desse vínculo, diante da morte, pode impactar
profundamente o profissional(16).
A formação acadêmica tradicional, ainda centrada em modelos
mecanicistas e curativos, frequentemente não prepara
adequadamente os profissionais para lidar com a finitude da vida,
contribuindo para a percepção da morte como fracasso
terapêutico(8,10,18). Diante disso, autores destacam a importância
da humanização do cuidado e da implementação de estratégias
institucionais de apoio psicológico, supervisão e educação
permanente, que favoreçam o enfrentamento ético e emocional
da morte e do luto no contexto hospitalar(6,10,15).
Nesse sentido, compreender as vivências dos profissionais de
saúde frente à perda de pacientes em UTI torna-se fundamental
para analisar como se constituem os vínculos afetivos, como o
luto é vivido e reconhecido, ou silenciado, no ambiente
institucional, bem como os impactos emocionais dessa
experiência sobre aqueles que cuidam.
O estudo teve como objetivo analisar as vivências de
profissionais de saúde diante da perda de um paciente no contexto
da UTI.
MÉTODO
Desenho, Período e Cenário
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa,
desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação Lato
Sensu, na modalidade de Residência Multiprofissional em Atenção
à Terapia Intensiva, realizado de junho a julho de 2025 na
Unidade Executora Hospital Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha.
A abordagem qualitativa foi adotada por permitir a apreensão
dos significados, valores, crenças e sentidos atribuídos pelos
participantes às experiências vividas, reconhecendo a
centralidade da subjetividade na compreensão dos fenômenos
sociais e institucionais. Esse tipo de investigação exige rigor
analítico, coerência metodológica e compromisso ético ao longo
de todo o processo investigativo(19).
População e Critérios de Inclusão e Exclusão
O estudo envolveu cinco pessoas para participação em
entrevistas semiestruturadas, orientadas por perguntas
norteadoras. Essa técnica possibilita flexibilidade na interação e
favorece a expressão aprofundada dos participantes, mantendo
alinhamento com os objetivos do estudo.
Os critérios de inclusão envolveram profissionais de nível
superior e técnico que lidam diretamente com os pacientes, que
passam no mínimo o plantão de 12h no setor de UTI, e que atuam
há pelo menos dois anos, visando um período de vivência e
formação como intensivista.
Já os critérios de exclusão contaram com os profissionais de
nível superior e técnico que não atuam diretamente com os
pacientes ou não passam um período mínimo de 12h no setor da
UTI adulto, bem como os residentes do setor.
Procedimento de Coleta de Dados
A coleta de dados ocorreu de forma presencial, nas
dependências da UTI adulto da instituição campo do estudo, no
período de 17 de junho de 2025 a 24 de junho de 2025, em
ambiente reservado e com tratamento acústico, garantindo
privacidade e confidencialidade aos participantes.
As entrevistas foram conduzidas pela própria pesquisadora,
responsável pelo estudo, assegurando a padronização do
procedimento de coleta e a observância dos princípios éticos que
orientam a pesquisa qualitativa.
A condução das entrevistas baseou-se em uma postura ética
e não diretiva, priorizando a escuta sensível das narrativas dos
participantes e favorecendo a livre expressão de suas vivências,
respeitando o ritmo, os silêncios e as singularidades do discurso
produzido no encontro entre pesquisadora e entrevistado.