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Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650050
INTRODUÇÃO
A premissa de que o bem-estar do profissional de saúde é um
componente indissociável da segurança e da qualidade da
assistência ao paciente está solidamente estabelecida na
literatura científica. Longe de ser uma questão "branda" ou
secundária, a saúde mental do cuidador emerge como um pilar
fundamental para a resiliência dos sistemas de saúde(1).
Evidências robustas, consolidadas em revisões sistemáticas e
meta-análises, demonstram uma correlação direta e inequívoca:
o esgotamento profissional (burnout) em equipes de enfermagem
está associado a piores indicadores de segurança, incluindo
maiores taxas de erros de medicação, quedas de pacientes,
infecções nosocomiais e, consequentemente, menor satisfação
dos pacientes com o cuidado recebido(2-4). Cuidar de quem cuida,
portanto, não é um objetivo humanitário isolado, mas uma
estratégia central para a excelência clínica.
Este axioma adquire uma urgência particular no contexto da
enfermagem psiquiátrica. Neste campo, os profissionais estão
imersos em um ambiente de complexidade emocional e riscos
psicossociais inerentes, configurando um verdadeiro paradoxo do
cuidado. Aqueles que dedicam suas vidas a tratar o sofrimento
psíquico da população estão, eles mesmos, expostos a uma
constelação única de estressores, como a sobrecarga crônica de
trabalho, a escassez de recursos humanos e, notadamente, a
ameaça constante de violência física e verbal(5). Este cenário de
vulnerabilidade acentuada potencializa o desenvolvimento de
quadros de burnout, fadiga por compaixão e estresse pós-
traumático, comprometendo não apenas a saúde do trabalhador,
mas também a sua capacidade de estabelecer relações
terapêuticas eficazes.
Em resposta a essa conjuntura, a legislação brasileira avançou
com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), vide
Portaria do Ministério do Trabalho e Emprego (TEM) nº
1.419/2024(6), que passou a exigir das organizações a inclusão
explícita dos fatores de riscos psicossociais no Gerenciamento de
Riscos Ocupacionais (GRO), esta exigência foi prorrogada para
2026, de acordo com a Portaria MTE nº 765/2025(7). Tais riscos
são definidos como aspectos da concepção, organização e gestão
do trabalho que possuem o potencial de causar danos psicológicos
ou físicos(8). Embora represente um marco regulatório, a NR-1
impõe um desafio de implementação formidável. A diretriz
estabelece "o que" deve ser feito, mas deixa uma lacuna sobre
"como" fazê-lo de forma eficaz e humanizada, especialmente em
ambientes de alta complexidade como os hospitais psiquiátricos.
O objetivo deste estudo é descrever a estratégia de inovação
aplicada como contribuição para a implementação inicial das
diretrizes sobre fatores psicossociais da NR-1 em um hospital
psiquiátrico, utilizando a Semana da Enfermagem como um
evento catalisador para a construção de uma cultura de segurança
psicológica e discutir o potencial dessa abordagem como um
modelo replicável para a transformação do cuidado ao cuidador.
MÉTODO
Tipo de Estudo
Trata-se de um relato de experiência de inovação aplicada,
com natureza descritiva e qualitativa. Para garantir o rigor
metodológico e a transparência do relato, a redação deste
manuscrito seguiu a diretriz internacional Standards for Quality
Improvement Reporting Excellence (SQUIRE 2.0 - Versão em
Português do Brasil)(9). O uso desta diretriz faz parte das
recomendações da Equator Network para adequação de estudos
e melhoria da qualidade de publicações de relato de experiência.
Cenário e Período de Realização da Experiência
A experiência foi desenvolvida em um hospital psiquiátrico
público de grande porte, gerido parcialmente pelo Centro de
Estudos e Pesquisas "Dr. João Amorim" (CEJAM), localizado em
um município de médio porte no interior do estado de São Paulo.
A instituição é uma referência no cuidado a pacientes do Sistema
Único de Saúde (SUS) com diversas psicopatologias. A
intervenção estratégica foi planejada e executada durante a
Semana da Enfermagem, ocorrendo no período de 12 a 23 de
maio de 2025.
Sujeitos Envolvidos na Experiência e os Aspectos Éticos
A população elegível para a participação, que ocorreu de forma
voluntária, consistiu em 86 profissionais da instituição. Este
contingente era composto por 70 membros da equipe de
enfermagem (17 enfermeiros e 53 técnicos de enfermagem) e 16
profissionais da equipe multiprofissional (incluindo psicólogos,
terapeutas ocupacionais e assistentes sociais).
A condução da experiência e a subsequente elaboração deste
relato foram pautadas por rigorosos preceitos éticos. Foi
assegurado o total anonimato dos participantes e a
confidencialidade da instituição, em alinhamento com as diretrizes
das Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional
de Saúde(10-11). Ainda, por se tratar de um relato de experiência
exitosa que emerge da prática profissional cotidiana e seguir
todas as recomendações da ética em pesquisa não foi necessária
a submissão para o comitê de ética em pesquisa com humanos.
Descrição da Experiência
A intervenção central foi a Semana da Enfermagem,
ressignificada sob o tema "Cuidando de quem cuida". O evento
transcendeu a tradicional comemoração para funcionar como um
vetor de mudança cultural. Foi oferecida uma programação
diversificada de atividades voluntárias, incluindo: Grupo
Terapêutico, Auriculoterapia, Quick Massage, Defesa Pessoal,
Yoga, Prática de Relaxamento, Dia da Beleza e Oficina do Cuidado.
Análise dos Dados
As observações sobre a experiência foram coletadas de forma
qualitativa, por meio da observação participante dos membros da
comissão organizadora e do registro do feedback verbal
espontâneo dos participantes. A análise temática desses registros
foi utilizada para avaliar o engajamento e identificar os temas
emergentes. Para mitigar o viés de observação, foram adotadas
medidas de rigor qualitativo, como a Triangulação de Dados
(envolvendo observação, feedback espontâneo e dados de
adesão) e a Rastreabilidade (diretriz SQUIRE 2.0). Dado o
desenho de relato de experiência com natureza descritiva e
qualitativa, os desfechos principais analisados foram a adesão e o
impacto psicossocial percebido, sem a aplicação de análises
estatísticas inferenciais formais.
RESULTADOS
A Semana da Enfermagem "Cuidando de quem cuida" foi
recebida com notável engajamento pela equipe, validando a
premissa de que havia uma demanda latente por ações de cuidado
direcionadas aos profissionais. A adesão geral foi expressiva,
totalizando 105 participações ao longo do evento. Dado que os
colaboradores podiam se inscrever em mais de uma atividade,
este número, superior ao total de 86 funcionários elegíveis, reflete
um alto grau de interesse e envolvimento. A Tabela 1 detalha a
distribuição dessas participações, permitindo uma análise do
alcance de cada intervenção específica.