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Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650049
Quatro Pilares da Comunicação Científica Interna
A literatura de KT descreve que levar evidências ao uso é um
processo ativo, com etapas, atores e mecanismos distintos, e
alerta para a confusão recorrente quando publicar, disseminar e
implementar são tratados como sinônimos(1,7).
Em organizações de saúde, essa distinção é ainda mais
relevante porque a adoção do conhecimento é sensível a contexto,
cultura, redes e liderança, portanto, mesmo bons resultados
podem ter pouco efeito prático quando não são traduzidos,
priorizados e incorporados a rotinas(2).
Além disso, estudos recentes em redes de saúde reforçam que
a disseminação é frequentemente cíclica e multinível, sujeita a
quebras em diferentes etapas, exigindo coordenação para que
decisões e aprendizados circulem de forma consistente até o nível
operacional(8).
Diante desse cenário, propõe-se um modelo pragmático de
comunicação científica interna em quatro pilares (integridade e
evidência, aplicabilidade, linguagem e formato e, governança e
métricas) orientado por princípios de KT, ciência da
implementação e aprendizagem contínua. A ideia central é
simples: cultura científica institucional não se sustenta apenas por
produção, mas por um ecossistema comunicacional que torne a
evidência compreensível, acionável e rastreável ao longo do
tempo, em ciclos de melhoria. Essa lógica é compatível com a
visão de learning health system, que enfatiza infraestrutura e
rotinas para aprender continuamente e recolocar conhecimento
na prática(5,9).
O Pilar 1 (integridade e evidência) parte do princípio de que a
comunicação científica interna não pode se reduzir à divulgação
de resultados: ela precisa preservar contexto e fidelidade ao
método. Em públicos diversos, a credibilidade é sustentada
quando se explicita, de forma objetiva, o que foi feito, o que foi
encontrado e quais são os limites, evitando simplificações que
transformem nuances em certeza e conclusões em slogans. A
literatura sobre materiais de comunicação (como resumos leigos
e infográficos) indica que a disseminação tende a ser mais efetiva
quando há planejamento, clareza e adaptação ao público, e
quando a produção do material é concebida como parte do próprio
projeto, e não como um apêndice no final do processo(11).
Ao mesmo tempo, há alertas relevantes sobre o risco de spin
(distorção ou maquiagem na interpretação e apresentação dos
resultados) em infográficos de pesquisas, o que reforça a
necessidade de validação interna e responsabilidade editorial para
impedir que o conteúdo assuma tom de persuasão institucional
em vez de comunicação baseada em evidências(12).
Além disso, sem critérios mínimos de curadoria e
transparência, a comunicação interna pode introduzir vieses que
afetam confiança e uso do conhecimento, como o viés de seleção
(priorizar apenas resultados positivos ou casos bem-sucedidos),
o viés de confirmação (redigir mensagens para reforçar decisões
já tomadas, reduzindo espaço para incertezas), a generalização
indevida (extrapolar achados locais para toda a instituição sem
delimitar condições de contexto), o viés de autoridade (tomar “foi
publicado/foi apresentado” como justificativa suficiente sem
discutir aplicabilidade) e o viés de canal/métrica (confundir
alcance, visualizações ou cliques com compreensão e
incorporação). Esses vieses amplificam o risco de distorção e
podem gerar ruído, sobreconfiança ou ceticismo, reduzindo a
probabilidade de uso consistente do conhecimento no
cotidiano(20,-23).
Para mitigar esses riscos, recomenda-se um conjunto enxuto
de práticas editoriais e técnicas, como, adotar um checklist
obrigatório para cada peça, instituir validação técnica rápida por
pares internos antes de publicar em canais amplos, explicitar para
quem se aplica e quando não se aplica, e definir responsabilidade
editorial com rastreabilidade mínima da decisão. Com esses
mecanismos, o pilar deixa de ser apenas um princípio e passa a
operar como proteção institucional contra distorções, preservando
integridade e utilidade prática da comunicação científica interna.
O Pilar 2 (aplicabilidade) responde ao principal ponto de
ruptura entre pesquisa e cultura: a falta de um “e daí?” claro para
o trabalho real. Mesmo quando as equipes reconhecem o valor de
evidências, o uso se enfraquece se não houver conexão explícita
com decisões, processos, prioridades e rotinas. Em termos
práticos, cada peça de comunicação interna precisa deixar
explícitos: quem é o público-alvo, qual decisão/processo pode ser
aprimorado e qual é o ganho esperado (qualidade, segurança,
eficiência, padronização, aprendizagem).
O estudo de Van der Ven (2025)(8), ao mapear disseminação
em redes, exemplifica esse ponto ao mostrar que a circulação do
conteúdo depende da atuação de representantes e da
transferência interna até a adoção; sem essa ponte até o
operacional, o conhecimento tende a ficar no nível da governança
ou de grupos especializados.
O Pilar 3 (linguagem e formato) parte de uma constatação
operacional: se a mensagem não for consumível no tempo e na
linguagem do cotidiano, ela não se transforma em aprendizagem
coletiva. Diretrizes práticas sobre comunicação de pesquisa em
linguagem simples reforçam que a legibilidade, a organização do
texto e a adequação visual são determinantes para compreensão
e uso(11,13).
E há evidência empírica de que resumos em linguagem
simples podem continuar difíceis quando mantêm jargões e baixa
legibilidade, o que sugere que ser simples deve ser verificado (por
exemplo, por instrumentos de legibilidade e testes com leitores)
e não presumido(14-15).
Assim, o pilar recomenda uma estratégia de micro conteúdos
multimodais (1 slide, FAQ, texto breve para TV/intranet,
infográfico simples), com mensagens-chave consistentes e
ligações para materiais completos quando necessário. A função é
reduzir custo cognitivo e aumentar taxa de entendimento sem
perder integridade.
O Pilar 4 (governança e métricas) reconhece que comunicação
científica interna não se sustenta por esforço individual; ela
precisa de papéis, rotinas e indicadores para não virar
intermitente. A ciência da implementação trata estratégias como
métodos para aumentar adoção e sustentação, e o projeto ERIC
(Expert Recommendations for Implementing Change) organizou
um vocabulário com termos e definições para estratégias de
implementação, oferecendo um repertório padronizado que
facilita especificar ações, atribuir responsabilidades e selecionar
combinações adequadas ao contexto(16).
Um risco típico é a fragmentação em silos funcionais: pesquisa
produz, comunicação divulga, educação treina, gestão prioriza e
assistência executa, porém sem um arranjo que coordene o ciclo
completo do conhecimento, da produção à incorporação em
decisões e rotinas. Quando essa coordenação transversal não
existe (ou fica difusa), o conteúdo circula de forma intermitente,
perde contexto ao atravessar áreas e tende a parar na governança
ou em grupos especializados, em vez de chegar ao nível
operacional com clareza de aplicabilidade e acompanhamento.