Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650049
ACESSO ABERTO
Autoria
Jefferson Vinicius de Souza Almeida1*
ORCID: https://orcid.org/0009-0008-2634-0536
*Correspondente: jefferson.almeida@cejam.org.br
Instituição
¹Centro de Estudos e Pesquisas Dr João Amorim (CEJAM), São
Paulo, Brasil.
Como citar este artigo • Copyright©
Almeida JVS. Publicar Não é Implementar: Reflexões sobre
Comunicação Científica Interna e Cultura de Aprendizagem em
Organizações de Saúde. Rev. Tec. Cient. CEJAM.
2026;5:e202650049. DOI: https://doi.org/10.59229/2764-
9806.RTCC.e202650049.
Editores
Abel Silva de Meneses Editor Chefe
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1632-2672
André Ramalho Editor Científico
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8099-3043
Submetido Aceito
06-01-2026 15-01-2026
Artigo de Reflexão
Publicar Não é Implementar: Reflexões sobre Comunicação
Científica Interna e Cultura de Aprendizagem em
Organizações de Saúde
Publishing Is Not Implementing: Reflections on Internal Scientific
Communication and a Culture of Learning in Health Organizations
Publicar No es Implementar: Reflexiones sobre la Comunicación
Científica Interna y la Cultura de Aprendizaje en Organizaciones de
Salud
Resumo
Objetivo: Refletir sobre as razões pelas quais a produção técnico-científica em organizações
de saúde nem sempre se transforma em aprendizagem e uso consistentes, e propor
diretrizes para estruturar um ecossistema de comunicação científica interna orientado à
cultura institucional. Método: Artigo de reflexão teórico-conceitual, fundamentado em
literatura sobre knowledge translation (Translação do Conhecimento), difusão de inovações,
sistemas de saúde de aprendizagem e comunicação científica em linguagem simples.
Resultados: Argumenta-se que “publicar” não equivale a “difundir” nem a “implementar”
e que, sem curadoria, tradução e governança, a evidência tende a fragmentar-se ou tornar-
se “vitrine”. Propõe-se um modelo pragmático em quatro pilares: (1) integridade e
evidência; (2) aplicabilidade; (3) linguagem e formato; (4) governança e métricas, além de
estratégias operacionais (microconteúdos, jornada integrada de canais, espaços de troca e
feedback) e indicadores que privilegiem compreensão e uso, e não apenas alcance.
Conclusão: Tratar a comunicação científica interna como infraestrutura de aprendizagem
pode reduzir o hiato entre conhecimento e prática, fortalecer confiança e acelerar ciclos de
melhoria contínua nas rotinas assistenciais e administrativas.
Descritores: Ciência da Implementação; Disseminação de Informação; Comunicação em
Saúde; Resumos em Linguagem Simples; Cultura Organizacional.
Abstract
Objective: Reflect on the reasons why technical and scientific output in healthcare
organizations does not always translate into consistent learning and use, and propose
guidelines for structuring an internal scientific communication ecosystem geared toward
institutional culture. Method: A theoretical-conceptual reflective paper grounded in the
literature on knowledge translation, diffusion of innovations, learning health systems, and
plain-language scientific communication. Results: It is argued that “publishing” is not
equivalent to “disseminating” or “implementing” and that, without curation, translation, and
governance, evidence tends to become fragmented or reduced to a “showcase.” A pragmatic
four-pillar model is proposed:(1) integrity and evidence; (2) applicability; (3) language and
format; (4) governance and metrics, along with operational strategies (micro-content, an
integrated channel journey, spaces for exchange and feedback) and indicators that prioritize
understanding and use rather than reach alone. Conclusion: Treating internal scientific
communication as a learning infrastructure can reduce the gap between knowledge and
practice, strengthen trust, and accelerate continuous improvement cycles in clinical and
administrative routines.
Descriptors: Implementation Science; Information Dissemination; Health Communication;
Plain Language Summaries; Organizational Culture.
Resumen
Objetivos: Reflexionar sobre las razones por las que la producción técnico-científica en las
organizaciones sanitarias no siempre se traduce en un aprendizaje y un uso consistentes, y
proponer directrices para estructurar un ecosistema de comunicación científica interna
orientado a la cultura institucional. Método: Artículo de reflexión teórico-conceptual,
fundamentado en la literatura sobre traducción del conocimiento, difusión de innovaciones,
sistemas de salud de aprendizaje y comunicación científica en lenguaje claro. Resultados:
Se argumenta que “publicar” no equivale a “difundir” ni a “implementar” y que, sin
curaduría, traducción y gobernanza, la evidencia tiende a fragmentarse o a convertirse en
una “vitrina”. Se propone un modelo pragmático de cuatro pilares:(1) integridad y evidencia;
(2) aplicabilidad; (3) lenguaje y formato; (4) gobernanza y métricas, además de estrategias
operativas (microcontenidos, recorrido integrado de canales, espacios de intercambio y
retroalimentación) e indicadores que prioricen la comprensión y el uso, y no solo el alcance.
Conclusión: Tratar la comunicación científica interna como una infraestructura de
aprendizaje puede reducir la brecha entre conocimiento y práctica, fortalecer la confianza y
acelerar ciclos de mejora continua en las rutinas asistenciales y administrativas.
Descriptores: Ciencia de la Implementación; Difusión de la Información; Comunicación en
Salud; Resúmenes en Lenguaje Claro; Cultura Organizacional.
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INTRODUÇÃO
Em organizações de saúde, a produção de conhecimento
técnico-científico tende a crescer à medida que programas de
pesquisa aplicada, eventos, repositórios internos e periódicos
institucionais se consolidam. Contudo, a existência de produtos
(artigos, relatórios, pôsteres, resumos) não garante, por si só,
que esse conhecimento seja compreendido, circulado e utilizado
de maneira consistente no cotidiano de trabalho. Esse
descompasso entre produzir evidência e transformá-la em prática
e aprendizagem é amplamente reconhecido na literatura de
knowledge translation (KT - translação de conhecimento), que
descreve a implementação do conhecimento como um processo
ativo, com etapas, barreiras e estratégias específicas, e não como
uma consequência automática da publicação(1).
Em serviços de saúde, a complexidade do sistema, múltiplas
equipes, prioridades concorrentes, pressão assistencial e rotinas
padronizadas amplifica esse desafio. Revisões clássicas sobre
difusão e sustentação de inovações em organizações de saúde
mostram que a adoção de mudanças depende de fatores como
contexto organizacional, liderança, características da inovação,
redes sociais, canais de comunicação e capacidade de absorção,
e não apenas da qualidade do conhecimento disponível(2).
Nessa perspectiva, a comunicação interna é uma variável
estrutural: quando inexiste curadoria e translação do
conhecimento, a evidência se fragmenta, permanece restrita a
grupos específicos e perde potência para orientar decisões e
melhorar processos
A lacuna entre evidência e uso também é abordada por
iniciativas de intermediação e sensemaking (processo humano de
criar sentido), que buscam conectar produtores e usuários do
conhecimento. Estudos sobre knowledge brokering descrevem
esse papel como facilitador da translação, contextualização e
aproximação entre pesquisa e tomada de decisão, especialmente
em ambientes onde tempo, linguagem e prioridades dificultam o
uso direto da literatura científica(3).
De modo complementar, comunidades de prática (CoPs) têm
sido propostas como espaços de aprendizagem social e troca
contínua, capazes de apoiar mentoria, disseminação e
incorporação de boas práticas no setor saúde; revisões
sistemáticas indicam que CoPs são utilizadas como estratégia para
melhorar a absorção do conhecimento e aprendizagem
profissional, embora sua efetividade dependa de desenho,
objetivos e sustentação organizacional(4).
Essa discussão converge com o conceito de Sistema de Saúde
de Aprendizagem (learning health system), que enfatiza a
capacidade institucional de aprender continuamente a partir de
dados, evidências e ciclos de melhoria. Nessa lógica, produzir
conhecimento é necessário, mas insuficiente, é preciso estruturar
mecanismos que tornem a evidência acessível e acionável,
reduzindo o tempo entre descobrir, comunicar e aplicar. Uma
agenda científica para sistemas de saúde que aprendem ressalta
justamente a importância de infraestrutura sociotécnica e
organizacional para sustentar ciclos de aprendizado(5).
Da mesma forma, documentos de referência das Academias
Nacionais destacam a melhoria contínua como componente
essencial de um sistema de saúde que aprende, reforçando a
necessidade de rotinas e capacidades institucionais para
transformar informação em ação(6).
Apesar disso, muitas organizações tratam a comunicação
científica interna como um subproduto (ou como mera
divulgação), e não como a parte importante que transforma
produção intelectual em cultura. Em termos práticos, essa
confusão gera dois riscos, a pesquisa vira um acervo com baixo
uso social interno e a comunicação se torna marketing de
resultados, sem integridade metodológica e sem utilidade para a
rotina.
Este artigo de reflexão parte da premissa de que publicar não
é sinônimo de difundir, e difundir não equivale a transferir
conhecimento com efeito. Defende-se que a construção de cultura
científica institucional exige um ecossistema de comunicação
interna que combine responsabilidade epistemológica (clareza
sobre o que se sabe e seus limites) com pragmatismo
organizacional (formatos e canais que alcancem diferentes
públicos e resultem em aprendizagem).
Com base na literatura de KT e aprendizagem organizacional
em saúde, argumenta-se que uma comunicação científica interna
sustentável pode ser organizada em quatro pilares: Integridade e
evidência (o que foi feito, como foi feito e quais limitações),
alinhada ao entendimento de KT como processo estruturado(1);
Aplicabilidade; Linguagem e formato (translação em micro
conteúdos e narrativas claras, apoiadas por redes como CoPs)(4);
e Governança e métricas (papéis, rotinas e indicadores de
aprendizado, e não apenas de alcance), compatível com
determinantes organizacionais da adoção e sustentação de
inovações(2).
Portanto, o objetivo dessa comunicação é refletir sobre as
razões pelas quais a produção técnico-científica em organizações
de saúde nem sempre se transforma em aprendizagem e uso
consistentes e, ao final, propor um conjunto de diretrizes práticas
para estruturar esse ecossistema, visando transformar produção
científica em aprendizagem institucional, engajamento e melhoria
contínua.
MÉTODO
Desenho e Procedimentos
Trata-se de um artigo de reflexão teórico-conceitual,
desenvolvido a partir de leitura crítica e síntese integrativa de
literatura-chave sobre KT, difusão de inovações, sistemas de
saúde de aprendizagem (learning health systems), ciência da
implementação e comunicação científica em linguagem simples.
A seleção das fontes foi orientada pela pertinência ao
problema discutido -o hiato entre produção técnico-científica,
disseminação e uso consistente de evidências- priorizando
modelos, frameworks e estudos aplicados ao contexto
organizacional. A análise consistiu na identificação de conceitos
convergentes, tensões e implicações práticas, culminando na
proposição de um modelo pragmático em quatro pilares e de
estratégias operacionais para estruturar um ecossistema de
comunicação científica interna alinhado à cultura institucional.
Limitações e Escopo da Reflexão
Este manuscrito é um artigo de reflexão de natureza teórico-
conceitual, orientado à problematização e à proposição de
recomendações práticas para comunicação científica interna e
aprendizagem organizacional em instituições de saúde. Assim,
não tem a intenção de estimar efeitos, testar hipóteses de
causalidade, comparar intervenções ou produzir inferências
empíricas típicas de delineamentos experimentais, quase-
experimentais ou observacionais.
A construção argumentativa baseia-se em literatura-chave e
em uma síntese interpretativa dos conceitos e frameworks
mobilizados ao longo do texto. Por essa razão, o trabalho está
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sujeito a viés de seleção de referências e a ênfases interpretativas
decorrentes do recorte adotado; consequentemente, não se
configura como revisão sistemática, não segue protocolo formal
de busca e elegibilidade e não realiza avaliação crítica
metodológica padronizada dos estudos incluídos.
As diretrizes propostas devem ser compreendidas como um
modelo pragmático para apoiar decisões institucionais, com
potencial de orientar rotinas, governança e desenho de canais de
comunicação. Entretanto, sua aplicabilidade pode demandar
adaptação ao contexto, considerando diferenças de porte
organizacional, maturidade da cultura científica, disponibilidade
de infraestrutura digital e informacional, capacidade de curadoria
editorial, bem como arranjos locais de governança e tomada de
decisão.
As recomendações sobre canais e formatos (por exemplo, TV
institucional, intranet e e-mail) dependem de capacidade
operacional, podendo ser implementadas de forma incremental,
com ajustes sucessivos a partir de indicadores de compreensão,
uso e incorporação em processos assistenciais e administrativos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Por que “Publicar” Não Vira Cultura?
A literatura sobre KT descreve que mover evidências para uso
envolve etapas e mecanismos (como síntese, adaptação ao
contexto, implementação, avaliação e sustentação), e também
aponta confusões conceituais frequentes quando organizações
tratam publicação, disseminação e implementação como se
fossem a mesma coisa(1,7).
Quando a instituição enxerga a publicação como o final do
ciclo, ela tende a subinvestir no que vem depois -translação para
públicos diversos, incorporação em rotinas e aprendizagem
contínua- componentes centrais para que conhecimento se torne
prática compartilhada e, portanto, cultura institucional(1).
Mesmo quando a organização dispõe de políticas, fluxos,
comitês e documentos de gestão do conhecimento, isso não
assegura que tais dispositivos sejam apropriados no cotidiano das
equipes. Em contextos assistenciais, um risco recorrente de
formalização sem uso: estruturas existem, mas não se convertem
em decisão, padronização, aprendizagem e mudança sustentada,
especialmente quando competem com pressão assistencial,
prioridades concorrentes e baixa disponibilidade de tempo. Nesse
cenário, a lacuna não é apenas de produção de evidência, mas de
translação operacional: tornar explícito como o conhecimento
entra no trabalho real, quem carrega o conteúdo até as rotinas e
quais condições permitem adoção e continuidade(2,5,9).
Esse desacoplamento entre o formal e o cotidiano é coerente
com a literatura sobre difusão de inovações em organizações de
saúde, que aponta influência de fatores como valores, clima de
inovação, liderança, prontidão do sistema, fluxos de comunicação,
presença de pesquisadores locais e compatibilidade com rotinas
assistenciais(2). Assim, mesmo evidências robustas podem não ser
percebidas como relevantes se parecerem distantes da realidade
do trabalho, competirem com prioridades assistenciais ou se não
houver canais internos que sustentem compreensão, alinhamento
e continuidade(2).
Mesmo quando existe esforço de disseminação, o processo
pode falhar por falta de tempo, baixo alinhamento entre atores,
ausência de responsabilidade definida e fragilidade dos canais que
fazem a informação chegar de forma útil(8).
Um estudo recente sobre redes de saúde sugere que a
disseminação de decisões e aprendizados não ocorre de forma
linear: trata-se de um processo cíclico, com idas e voltas e
feedback, e multinível, pois depende da articulação entre a rede,
seus representantes e as equipes dentro de cada organização. Por
isso, é suscetível a falhas em diferentes etapas e requer
coordenação ativa para que a informação chegue de modo
consistente às unidades operacionais(8).
Duas estratégias aparecem com frequência na literatura para
reduzir o hiato entre produção e uso do conhecimento. A primeira
é o knowledge brokering (intermediação), no qual indivíduos ou
funções conectam produtores e usuários, traduzem e
contextualizam evidências e apoiam a troca e a construção de
capacidade local, com suporte descrito em revisão sistemática(3).
A segunda são as comunidades de prática (CoPs), entendidas
como espaços de aprendizagem social que favorecem troca
contínua, mentoria e incorporação de práticas. Uma revisão
sistemática descreve seu uso no setor saúde e destaca que seus
efeitos dependem do desenho e da sustentação organizacional(4).
Sem essas pontes (papéis) e arenas (rituais), a produção
tende a ficar restrita a grupos especializados, reduzindo
apropriação coletiva e enfraquecendo a construção de cultura
científica interna(3-4).
Publicar é necessário, mas não suficiente. A cultura científica
institucional se fortalece quando a organização cria rotinas e
infraestrutura para aprender continuamente, conectado à
evidência, comunicação interna responsável e ciclos de melhoria
-lógica alinhada ao conceito de learning health system(5,9). Além
disso, a disseminação precisa ser tratada com integridade
(evitando comunicação vitrine), com clareza de limites e
responsabilidade na forma de comunicar resultados a diferentes
públicos(10).
Quadro 1 - Problemas e soluções na translação do conhecimento
para a prática institucional, São Paulo, Brasil, 2025.
Desafio
recorrente
Consequência
típica
Estratégia pragmática de
comunicação interna
Conteúdo científico
nasce já no formato
de artigo
Baixa leitura e
baixa apropriação
Criar microformatos: “1
minuto”, “1 slide”, “FAQ
(Frequently Asked Questions -
Perguntas Frequentes)” e “o
que muda na prática”
Linguagem técnica
sem tradução para
a rotina
Resistência / “isso
não serve pra mim”
Campo obrigatório:
Aplicabilidade (decisão,
processo, público-alvo e
quando usar)
Comunicação vira
vitrine (só
resultado)
Perda de confiança
Template com integridade:
método em 3 linhas +
limitações + próximos passos
Canais
desconectados (TV,
e-mail, intranet
sem integração)
Repetição ou
lacunas
Jornada única: teaser (TV)
detalhe (intranet)
discussão (reunião/CoP)
Ausência de
espaços de troca ou
baixa participação
das áreas
Conhecimento não
vira prática
compartilhada
Rodas rápidas mensais /
comunidade de prática por
tema/linha
Evidência não se
conecta a
prioridades
institucionais
Percepção de
trabalho “extra”
Link explícito com segurança,
qualidade, indicadores, fluxo
(por que importa agora) [2]
Falta retorno para
quem produz
Desengajamento e
queda de
submissões
Feedback estruturado: “o que
foi usado”, “onde impactou”,
“qual próxima pergunta” [5]
Fonte: Elaboração do autor
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Quatro Pilares da Comunicação Científica Interna
A literatura de KT descreve que levar evidências ao uso é um
processo ativo, com etapas, atores e mecanismos distintos, e
alerta para a confusão recorrente quando publicar, disseminar e
implementar são tratados como sinônimos(1,7).
Em organizações de saúde, essa distinção é ainda mais
relevante porque a adoção do conhecimento é sensível a contexto,
cultura, redes e liderança, portanto, mesmo bons resultados
podem ter pouco efeito prático quando não são traduzidos,
priorizados e incorporados a rotinas(2).
Além disso, estudos recentes em redes de saúde reforçam que
a disseminação é frequentemente cíclica e multinível, sujeita a
quebras em diferentes etapas, exigindo coordenação para que
decisões e aprendizados circulem de forma consistente até o nível
operacional(8).
Diante desse cenário, propõe-se um modelo pragmático de
comunicação científica interna em quatro pilares (integridade e
evidência, aplicabilidade, linguagem e formato e, governança e
métricas) orientado por princípios de KT, ciência da
implementação e aprendizagem contínua. A ideia central é
simples: cultura científica institucional não se sustenta apenas por
produção, mas por um ecossistema comunicacional que torne a
evidência compreensível, acionável e rastreável ao longo do
tempo, em ciclos de melhoria. Essa lógica é compatível com a
visão de learning health system, que enfatiza infraestrutura e
rotinas para aprender continuamente e recolocar conhecimento
na prática(5,9).
O Pilar 1 (integridade e evidência) parte do princípio de que a
comunicação científica interna não pode se reduzir à divulgação
de resultados: ela precisa preservar contexto e fidelidade ao
método. Em públicos diversos, a credibilidade é sustentada
quando se explicita, de forma objetiva, o que foi feito, o que foi
encontrado e quais são os limites, evitando simplificações que
transformem nuances em certeza e conclusões em slogans. A
literatura sobre materiais de comunicação (como resumos leigos
e infográficos) indica que a disseminação tende a ser mais efetiva
quando planejamento, clareza e adaptação ao público, e
quando a produção do material é concebida como parte do próprio
projeto, e não como um apêndice no final do processo(11).
Ao mesmo tempo, há alertas relevantes sobre o risco de spin
(distorção ou maquiagem na interpretação e apresentação dos
resultados) em infográficos de pesquisas, o que reforça a
necessidade de validação interna e responsabilidade editorial para
impedir que o conteúdo assuma tom de persuasão institucional
em vez de comunicação baseada em evidências(12).
Além disso, sem critérios mínimos de curadoria e
transparência, a comunicação interna pode introduzir vieses que
afetam confiança e uso do conhecimento, como o viés de seleção
(priorizar apenas resultados positivos ou casos bem-sucedidos),
o viés de confirmação (redigir mensagens para reforçar decisões
tomadas, reduzindo espaço para incertezas), a generalização
indevida (extrapolar achados locais para toda a instituição sem
delimitar condições de contexto), o viés de autoridade (tomar “foi
publicado/foi apresentado” como justificativa suficiente sem
discutir aplicabilidade) e o viés de canal/métrica (confundir
alcance, visualizações ou cliques com compreensão e
incorporação). Esses vieses amplificam o risco de distorção e
podem gerar ruído, sobreconfiança ou ceticismo, reduzindo a
probabilidade de uso consistente do conhecimento no
cotidiano(20,-23).
Para mitigar esses riscos, recomenda-se um conjunto enxuto
de práticas editoriais e técnicas, como, adotar um checklist
obrigatório para cada peça, instituir validação técnica rápida por
pares internos antes de publicar em canais amplos, explicitar para
quem se aplica e quando não se aplica, e definir responsabilidade
editorial com rastreabilidade mínima da decisão. Com esses
mecanismos, o pilar deixa de ser apenas um princípio e passa a
operar como proteção institucional contra distorções, preservando
integridade e utilidade prática da comunicação científica interna.
O Pilar 2 (aplicabilidade) responde ao principal ponto de
ruptura entre pesquisa e cultura: a falta de um “e daí?” claro para
o trabalho real. Mesmo quando as equipes reconhecem o valor de
evidências, o uso se enfraquece se não houver conexão explícita
com decisões, processos, prioridades e rotinas. Em termos
práticos, cada peça de comunicação interna precisa deixar
explícitos: quem é o público-alvo, qual decisão/processo pode ser
aprimorado e qual é o ganho esperado (qualidade, segurança,
eficiência, padronização, aprendizagem).
O estudo de Van der Ven (2025)(8), ao mapear disseminação
em redes, exemplifica esse ponto ao mostrar que a circulação do
conteúdo depende da atuação de representantes e da
transferência interna até a adoção; sem essa ponte até o
operacional, o conhecimento tende a ficar no nível da governança
ou de grupos especializados.
O Pilar 3 (linguagem e formato) parte de uma constatação
operacional: se a mensagem não for consumível no tempo e na
linguagem do cotidiano, ela não se transforma em aprendizagem
coletiva. Diretrizes práticas sobre comunicação de pesquisa em
linguagem simples reforçam que a legibilidade, a organização do
texto e a adequação visual são determinantes para compreensão
e uso(11,13).
E evidência empírica de que resumos em linguagem
simples podem continuar difíceis quando mantêm jargões e baixa
legibilidade, o que sugere que ser simples deve ser verificado (por
exemplo, por instrumentos de legibilidade e testes com leitores)
e não presumido(14-15).
Assim, o pilar recomenda uma estratégia de micro conteúdos
multimodais (1 slide, FAQ, texto breve para TV/intranet,
infográfico simples), com mensagens-chave consistentes e
ligações para materiais completos quando necessário. A função é
reduzir custo cognitivo e aumentar taxa de entendimento sem
perder integridade.
O Pilar 4 (governança e métricas) reconhece que comunicação
científica interna o se sustenta por esforço individual; ela
precisa de papéis, rotinas e indicadores para não virar
intermitente. A ciência da implementação trata estratégias como
métodos para aumentar adoção e sustentação, e o projeto ERIC
(Expert Recommendations for Implementing Change) organizou
um vocabulário com termos e definições para estratégias de
implementação, oferecendo um repertório padronizado que
facilita especificar ações, atribuir responsabilidades e selecionar
combinações adequadas ao contexto(16).
Um risco típico é a fragmentação em silos funcionais: pesquisa
produz, comunicação divulga, educação treina, gestão prioriza e
assistência executa, porém sem um arranjo que coordene o ciclo
completo do conhecimento, da produção à incorporação em
decisões e rotinas. Quando essa coordenação transversal não
existe (ou fica difusa), o conteúdo circula de forma intermitente,
perde contexto ao atravessar áreas e tende a parar na governança
ou em grupos especializados, em vez de chegar ao nível
operacional com clareza de aplicabilidade e acompanhamento.
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Nessa linha, a governança mínima inclui: curadoria editorial
(pauta, calendário, padronização), validação técnica (conteúdo e
limites), operação de canais (TV/intranet/boletim), e mecanismos
de feedback para alimentar ciclos de melhoria. Em vez de métricas
de vaidade (apenas visualizações), sugere-se combinar
indicadores de alcance com indicadores de compreensão (FAQ
mais acessada; quiz curto) e de uso (solicitações de material;
incorporação em reuniões/rotinas), o que é coerente com a lógica
de aprendizagem contínua descrita para learning health
systems(5,9).
Em síntese, o modelo propõe que publicar se torne cultura
quando a organização investe em um ecossistema comunicacional
que, comunica com integridade, conecta evidência a decisões,
traduz em formatos acessíveis e sustenta a prática com
governança e métricas voltadas à aprendizagem e uso.
CONCLUSÃO
Este artigo de reflexão defendeu que publicar não é sinônimo
de difundir, e que difundir, por si só, tampouco garante uso. A
literatura em KT já aponta que o deslocamento do conhecimento
para a ação é um processo com etapas e mecanismos próprios,
frequentemente confundidos com a simples produção ou
disseminação de conteúdo.
Em organizações de saúde, essa lacuna se intensifica porque
adoção e sustentação dependem de contexto, liderança, redes e
compatibilidade com rotinas; assim, mesmo evidências relevantes
podem não se transformar em prática compartilhada sem
condições organizacionais que as suportem.
Nesse sentido, o argumento central foi que a comunicação
científica interna deve ser tratada como infraestrutura de
aprendizagem, alinhada à lógica dos learning health systems, em
que conhecimento, prática e feedback se conectam em ciclos
contínuos de melhoria.
O modelo proposto, integridade e evidência; aplicabilidade;
linguagem e formato; governança e métricas, não pretende ser
uma prescrição universal, mas um enquadramento pragmático
para reduzir dois desvios comuns: a pesquisa como acervo
(existe, mas pouco circula) e a comunicação como vitrine (circula,
mas perde rigor e confiança). A contribuição desta reflexão está
em deslocar a pergunta institucional de, como divulgar mais? para
“como garantir entendimento, uso e sustentação do que se
produz?”.
Como implicação prática, sugere-se que o sucesso desse
ecossistema seja avaliado com métricas coerentes com mudança
organizacional, distinguindo resultados de implementação
(aceitabilidade, adoção, adequação, fidelidade, sustentação) de
simples indicadores de alcance.
A adoção de estruturas reconhecidas pode ajudar a equilibrar
alcance e manutenção, evitando que “visibilidade” seja
confundida com efeito.
Por ser um artigo de reflexão, este texto não reivindica
generalização empírica. Seu valor reside em propor um marco
interpretativo e um conjunto de pistas operacionais para
instituições que desejam transformar produção científica em
cultura institucional.
CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
Transparência na contribuição dos autores segundo a
Taxonomia CRediT.
Conceitualização
Jefferson Vinicius de Souza Almeida
Curadoria de dados
Jefferson Vinicius de Souza Almeida
Análise formal
Jefferson Vinicius de Souza Almeida
Aquisição de financiamento
Não aplicável
Investigação
Jefferson Vinicius de Souza Almeida
Metodologia
Jefferson Vinicius de Souza Almeida
Administração do projeto
Não aplicável
Recursos
Não aplicável
Software
Não aplicável
Supervisão
Não aplicável
Validação
Jefferson Vinicius de Souza Almeida
Visualização
Jefferson Vinicius de Souza Almeida
Escrita - esboço original
Jefferson Vinicius de Souza Almeida
Escrita - revisão e edição
Jefferson Vinicius de Souza Almeida
DECLARAÇÕES
Conflitos de interesse
Não aplicável
Financiamento
Não aplicável
Aprovação ética
Não aplicável
Agradecimentos
Não aplicável
Preprint
Não aplicável
Inteligência Artificial
Não aplicável
REFERÊNCIAS
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