Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650048
OPEN ACCESS
Autoria
Luana Santos Chagas da Paixão1*
ORCID: https://orcid.org/0009-0004-1004-3845
Jucinei Araujo de Jesus2
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3159-4273
*Correspondente: luanacpaixão7@gmail.com
Instituição
¹Comissão de Residência Multiprofissional em Saúde,
Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, São Paulo, Brasil.
2Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, São Paulo, Brasil.
Como citar este artigo • Copyright©
Paixão LSC, Jesus JA. Vivências e Impactos do Processo de
Hospitalização em Unidade de Terapia Intensiva para o
Acompanhante Familiar. Rev. Tec. Cient. CEJAM.
2026;5:e202650048. DOI: https://doi.org/10.59229/2764-
9806.RTCC.e202650048.
Editores
Abel Silva de Meneses Editor Chefe
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1632-2672
André Ramalho Editor Científico
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8099-3043
Submetido Aceito
22-09-2025 26-10-2025
Artigo Original
Vivências e Impactos do Processo de Hospitalização em
Unidade de Terapia Intensiva para o Acompanhante Familiar
Experiences and Impacts of the Process of Hospitalization in an
Intensive Care Unit for Family Members
Experiencias e Impactos del Proceso de Hospitalización en la Unidad
de Cuidados Intensivos para el Familiar Acompañante
Resumo
Objetivo: Analisar o impacto emocional e o sofrimento dos familiares acompanhantes
decorrentes da internação de pacientes em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulta e
relacionar os cuidados prestados pela equipe multiprofissional aos princípios da Política
Nacional de Humanização. Método: Estudo de campo, de abordagem qualitativa, descritiva
e exploratória, realizado entre junho e agosto de 2025, com acompanhantes de pacientes
em risco iminente de morte internados na Unidade de Terapia Intensiva Adulta de um
Hospital Municipal de São Paulo. Os dados foram coletados por meio de entrevistas
semiestruturadas e analisados segundo o método de análise de conteúdo e a qualidade
metodológica se deu pelo Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research.
Resultados: Os familiares enfrentam intenso sofrimento emocional, expresso por medo,
ansiedade e luto antecipado. A visita mostrou-se essencial para o vínculo afetivo, enquanto
a comunicação da equipe influenciou diretamente a percepção de acolhimento. A
espiritualidade destacou-se como recurso de apoio e ressignificação, reforçando a
importância de práticas humanizadas. Conclusão: Acompanhar um ente querido em estado
crítico na UTI é uma experiência desgastante, marcada por incertezas, restrições de visita
e dificuldade de acesso a informações claras. Conclui-se que é essencial incorporar práticas
multiprofissionais humanizadas que incluam também o cuidado aos familiares.
Descritores: Hospitalização; Unidade de Terapia Intensiva; Família; Sofrimento Emocional;
Luto Antecipado.
Abstract
Objective: To analyze the emotional impact and suffering of accompanying family members
resulting from the hospitalization of patients in the adult Intensive Care Unit (ICU) and relate
the care provided by the multidisciplinary team to the principles of the National
Humanization Policy. Method: A qualitative, descriptive, and exploratory field study was
conducted between June and August 2025 with family members accompanying patients at
imminent risk of death admitted to the Adult Intensive Care Unit of a municipal hospital in
São Paulo. Data were collected through semi-structured interviews and analyzed using
content analysis, and methodological quality was assessed using the Consolidated Criteria
for Reporting Qualitative Research. Results: Family members experience intense emotional
suffering, expressed through fear, anxiety, and anticipatory grief. Visits proved essential for
emotional bonding, while communication from the team directly influenced the perception
of acceptance. Spirituality stood out as a resource for support and reframing, reinforcing the
importance of humanized practices. Conclusion: Accompanying a loved one in critical
condition in the ICU is a stressful experience, marked by uncertainty, visiting restrictions,
and difficulty accessing clear information. We conclude that it is essential to incorporate
humanized multidisciplinary practices that also include care for family members.
Descriptors: Hospitalization; Intensive Care Unit; Family; Emotional Distress; Anticipatory
Grief.
Resumen
Objetivos: Analizar el impacto emocional y el sufrimiento de los familiares acompañantes
derivados de la hospitalización de pacientes en la Unidad de Cuidados Intensivos (UCI) para
adultos y relacionar los cuidados prestados por el equipo multidisciplinario con los principios
de la Política Nacional de Humanización. Método: studio de campo, de enfoque cualitativo,
descriptivo y exploratorio, realizado entre junio y agosto de 2025, con acompañantes de
pacientes en riesgo inminente de muerte ingresados en la Unidad de Cuidados Intensivos
para adultos de un hospital municipal de São Paulo. Los datos se recopilaron mediante
entrevistas semiestructuradas y se analizaron según el método de análisis de contenido, y
la calidad metodológica se evaluó mediante los Criterios Consolidados para la Presentación
de Informes de Investigación Cualitativa. Resultados: Los familiares enfrentan un intenso
sufrimiento emocional, expresado por miedo, ansiedad y duelo anticipado. Las visitas
resultaron esenciales para el vínculo afectivo, mientras que la comunicación del equipo
influyó directamente en la percepción de acogida. La espiritualidad se destacó como un
recurso de apoyo y resignificación, reforzando la importancia de las prácticas humanizadas.
Conclusión: Acompañar a un ser querido en estado crítico en la UCI es una experiencia
agotadora, marcada por incertidumbres, restricciones de visita y dificultad para acceder a
información clara. Se concluye que es esencial incorporar prácticas multiprofesionales
humanizadas que incluyan también el cuidado de los familiares.
Descriptores: Hospitalización; Unidades de Cuidados Intensivos; Familia; Sofrimento
Emocional; Aflicción.
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INTRODUÇÃO
A hospitalização em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é uma
experiência complexa e estressante que afeta não apenas o
paciente, mas também seus familiares. O contexto de gravidade
clínica, risco iminente de morte e falta de informações claras
intensifica sentimentos de medo, angústia e impotência,
impactando diretamente o bem-estar emocional dos
acompanhantes(1-2).
Os familiares, frequentemente assumindo o papel de
cuidadores, enfrentam elevada carga de estresse e fragilidade
emocional, o que pode gerar alterações na dinâmica familiar.
Nesse cenário, torna-se fundamental reconhecer sua importância
no processo de cuidado e ampliar as estratégias de humanização
que incluam suporte e acolhimento também para os
acompanhantes(3).
Apesar disso, a família muitas vezes é negligenciada em
ambientes hospitalares, prevalecendo uma assistência centrada
exclusivamente no paciente(4). A qualidade da comunicação e da
relação com a equipe multiprofissional é determinante: quando
clara e empática, contribui para o enfrentamento, minimizando os
danos emocionais; quando falha, amplia o sofrimento(5).
A espiritualidade também surge como recurso central de
enfrentamento, funcionando como fonte de conforto,
ressignificação e sustentação diante da incerteza(6). Sua
relevância, embora reconhecida na literatura, ainda é pouco
explorada nas práticas hospitalares, especialmente no contexto
da UTI(7).
Nesse processo, a atuação da equipe multiprofissional, em
especial da psicologia hospitalar, é estratégica para promover
acolhimento, escuta qualificada e apoio emocional. O psicólogo
atua como mediador entre equipe, paciente e familiares,
favorecendo a comunicação e a elaboração do sofrimento
vivenciado(8).
À luz do modelo biopsicossocial(9) e das diretrizes da Política
Nacional de Humanização (PNH)(10), torna-se indispensável
compreender o impacto da hospitalização também sob a
perspectiva familiar, ampliando práticas que integrem cuidado
técnico e suporte emocional.
Assim, este estudo tem como objetivo analisar os impactos
emocionais e o sofrimento vivenciado por familiares
acompanhantes de pacientes internados em UTI adulta,
relacionando-os ao cuidado multiprofissional e aos princípios da
Política Nacional de Humanização.
MÉTODO
Desenho, Período e Cenário
Trata-se de um estudo qualitativo de campo, de natureza
descritiva e exploratória, realizado na UTI Adulta do Hospital
Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha, hospital público
localizado em São Paulo. A unidade dispõe de 20 leitos, sendo dois
de isolamento, e recebe pacientes das áreas clínica e cirúrgica.
A pesquisa foi conduzida entre junho e agosto de 2025, tendo
como participantes os acompanhantes familiares de pacientes
classificados pela equipe médica como em situação de risco
iminente de morte. Essa condição foi definida a partir de critérios
clínicos, como necessidade de ventilação mecânica invasiva,
escore elevado na escala SOFA, gravidade do prognóstico ou
indicação de cuidados paliativos.
Para assegurar a qualidade metodológica e a transparência da
pesquisa, o estudo seguiu as diretrizes da ferramenta
Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ).
Participantes da Pesquisa
Os participantes foram selecionados mediante convite,
realizado durante os horários de visita, sendo abordados pela
pesquisadora, que explicou os objetivos da pesquisa e esclareceu
eventuais dúvidas. Todos os familiares convidados concordaram
em participar e formalizaram sua adesão por meio da assinatura
do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Critérios de Inclusão e Exclusão
Participaram do estudo acompanhantes familiares que
mantinham presença constante junto ao paciente durante a
internação, por um período mínimo de 48 horas, e que possuíam
vínculo parental direto com o mesmo. Foram excluídos os
acompanhantes remunerados ou contratados que não
apresentavam relação de parentesco com o paciente.
Coleta de Dados
A coleta de dados envolveu entrevistas semiestruturadas com
familiares e levantamento de informações nos prontuários dos
pacientes, para caracterização clínica (diagnóstico principal,
tempo de internação e suporte ventilatório).
A coleta de dados foi realizada na sala de acolhimento
destinada aos acompanhantes, localizada dentro da UTI. Foi
entrevistado apenas um acompanhante por paciente. Todos os
familiares receberam e assinaram o TCLE, responderam a um
questionário sociodemográfico (idade, sexo, parentesco,
escolaridade, ocupação, religião, estado civil e tempo de
internação) e participaram de entrevistas semiestruturadas.
Foram realizadas seis entrevistas, cada uma com duração
entre 8 e 33 minutos, conduzidas pelo pesquisador psicólogo
residente do último ano, atuante na UTI. Os familiares foram
abordados em horário de visita e convidados a participar do
estudo, sendo que todos aceitaram. As entrevistas foram áudio-
gravadas e transcritas na íntegra.
Foram registrados diário reflexivo, utilizado para apoiar a
supervisão, foi utilizado como ferramenta para apoiar a
supervisão, refletir sobre possíveis vieses interpretativos e
garantir maior rigor na análise dos dados. Nele foram registradas
observações sobre o comportamento e as emoções dos
participantes durante as entrevistas, reflexões acerca da atuação
do pesquisador e das possíveis interferências decorrentes de seu
vínculo profissional com a UTI, decisões tomadas ao longo do
processo de coleta e análise de dados, bem como notas sobre
reações inesperadas, dificuldades ou dúvidas interpretativas. A
utilização desse diário permitiu minimizar vieses relacionados à
atuação do pesquisador, conferindo maior transparência
metodológica e aumentando a confiabilidade na interpretação das
entrevistas.
A amostragem foi intencional, composta por familiares
acompanhantes de pacientes em risco iminente de morte. O
número de entrevistas (n=6) foi definido por saturação temática,
identificada a partir da análise iterativa dos discursos. As
categorias temáticas exploradas incluíram: sofrimento emocional,
visita familiar, relação com a equipe de saúde, espiritualidade e
comunicação.
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Análise de Dados
A análise dos dados seguiu a metodologia de análise de
conteúdo categorial temática proposta por Bardin(11), com apoio
do software MaxQDA.
O processo envolveu leitura exaustiva, codificação das
unidades de significado, agrupamento em categorias temáticas e
interpretação dos núcleos de sentido, em abordagem
predominantemente indutiva, orientada por dimensões
previamente reconhecidas na literatura sobre hospitalização em
UTI.
As entrevistas foram transcritas literalmente (verbatim) pelo
pesquisador entre junho e agosto de 2025, revisadas por um
segundo pesquisador para garantir a fidelidade do conteúdo.
Aspectos Éticos e de Integridade
O estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em
Pesquisa do Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da
Rocha, registrado na Plataforma Brasil sob o CAAE
77947324.6.0000.5452, com parecer nº 7.252.006.
Todos os participantes receberam informações detalhadas
sobre a pesquisa, assinaram TCLE e tiveram assegurado o direito
de recusa ou desistência em qualquer momento, sem prejuízo ao
atendimento.
Os dados foram armazenados em pasta eletrônica protegida
por senha, acessível somente ao pesquisador, e serão mantidos
por cinco anos, conforme a Resolução 466/12 do Conselho
Nacional de Saúde.
Após esse período, os arquivos serão destruídos. Todas as
etapas respeitaram a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei
13.709/2018), garantindo a anonimização das informações e a
proteção da identidade dos participantes.
Em casos de sofrimento emocional identificado durante ou
após a entrevista, os familiares foram encaminhados para suporte
psicológico ofertado pelo serviço de psicologia da própria
instituição.
RESULTADOS
Os entrevistados foram identificados apenas por códigos (“F1”, “F2” “F3”, “F4”, “F5” e “F6”), assegurando anonimato e
confidencialidade. No quadro 1 é apresentada a caracterização sociodemográfica dos familiares que compuseram a amostra.
Quadro 1 - Perfil sociodemográfico dos familiares, São Paulo, Brasil, 2025.
Família
Tempo de
Internação
Parentesco
Sexo
Idade
Escolaridade
Religião
Estado
Civil
1
14 dias
Neta
F
33
Ensino médio
completo
Cristã
Solteira
2
9 dias
Pai
M
69
Ensino médio
completo
Cristão
Casado
3
90 dias
Mãe
F
61
Ensino médio
completo
Cristã
Casada
4
6 dias
Neta
F
23
Ensino
fundamental
Umbandista
Solteira
5
15 dias
Prima
F
32
Ensino superior
Católica
Solteira
6
7 dias
Esposa
F
48
Ensino superior
Cristã
Casada
Legenda: F = Feminino; M = Masculino.
Fonte: Elaboração do autor
A análise sociodemográfica revelou predomínio feminino (83%), em sua maioria adultos em idade produtiva (30 a 60 anos). Houve
diversidade de vínculos familiares (netas, esposa, pai, mãe e prima) e presença marcante da religiosidade (5 cristãos e 1 umbandista).
Esses elementos evidenciam o papel central das mulheres no cuidado, a pluralidade de laços familiares e a espiritualidade como recurso
de enfrentamento.
A análise de conteúdo das entrevistas permitiu identificar cinco núcleos temáticos centrais, apresentados no Quadro 2.
Quadro 2 - Resumo das entrevistas categorizadas pela dimensão da análise, subtemas e produto gerado, São Paulo, Brasil, 2025.
Análise categorial das entrevistas com familiares de pacientes internados em UTI
Dimensão de Análise
Indicadores (Subtemas)
Evidências das Entrevistas
Sofrimento Emocional
Medo, angústia, impotência,
ansiedade, luto antecipado
“Sinto como se estivesse perdendo ele aos poucos”
(F6); “A ansiedade me consome” (F2).
Visita Familiar
Expectativa, demonstrações de
afeto, despedida simbólica
“A visita é o único momento em que consigo tocá-lo”
(F3); “Falei que podia descansar, que a gente ia ficar
bem” (F6).
Relação com a Equipe de Saúde
Acolhimento, escuta ativa, críticas
pontuais
“A médica foi muito clara comigo, isso me ajudou”
(F4); “Senti falta de retorno dos enfermeiros” (F5).
Espiritualidade
Crença em milagre, entrega a
Deus, resignação com fé
“A última palavra é de Deus” (F6); “Rezo muito, sei
que Ele pode tudo (F2).
Comunicação
Clareza, empatia, insuficiência de
informações
“Faltou explicarem melhor o que está acontecendo
(F3); “Me senti acolhida pela psicóloga” (F6).
Fonte: Elaboração do autor
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Núcleos de sentido das entrevistas com familiares de pacientes
críticos em UTI.
Sofrimento Emocional
Todos os familiares participantes relataram níveis elevados de
sofrimento psíquico durante o período de internação. Os principais
sentimentos identificados foram:
Medo: presente em 100% dos participantes (6/6);
Ansiedade: relatada por 83% (5/6);
Luto antecipado: mencionado por 50% (3/6);
Angústia e impotência: assinalados por 66% (4/6).
Este núcleo evidencia que a experiência de acompanhamento
de pacientes críticos na UTI está fortemente marcada por intenso
impacto emocional, permeado por sentimentos de apreensão,
vulnerabilidade e antecipação de perdas.
Participantes com um elevado nível de sofrimento psíquico,
marcado por medo, angústia, ansiedade e tristeza profunda. Esse
sofrimento oscilou entre a esperança de recuperação e a
antecipação da perda, configurando um processo de luto
antecipado.
Nas entrevistas iniciais (F1, F2), predominaram ansiedade e
expectativa de melhora; em F3 e F4, observaram-se sinais de
exaustão emocional; em F5 e F6, surgiram maior resignação e
aceitação da possibilidade de perda.
Visita Familiar
Foi descrito como momento intensamente aguardado o
período de visita, permeado por forte carga emocional. Foram
relatadas manifestações de afeto, orações, palavras de
encorajamento e despedidas simbólicas.
Nas entrevistas iniciais, prevaleceram sentimentos de
nervosismo e esperança; nos relatos finais (F6), emergiram
serenidade e gestos de despedida. A visita representou
oportunidade de preservar vínculos afetivos diante das restrições
impostas pela internação.
Relação com a Equipe de Saúde
As experiências em relação à equipe foram heterogêneas.
Houve críticas à enfermagem, associadas à ausência de
acolhimento e de informações, enquanto dicos e psicólogos
foram lembrados como fontes de empatia e suporte.
Em F1 e F4, foram relatadas experiências positivas de
acolhimento; em F5, críticas mais incisivas à enfermagem; em F6,
destacou-se o papel do suporte psicológico como fundamental em
momentos de fragilidade.
Espiritualidade
A fé e a espiritualidade emergiram como recursos centrais de
enfrentamento, relatados por todos os familiares. As
manifestações variaram da esperança em um milagre até a
aceitação da vontade divina.
Em alguns relatos, a espiritualidade foi apontada como
mediadora do sofrimento emocional, conferindo conforto e
sustentação diante da incerteza e da possibilidade de perda.
Comunicação
A comunicação foi descrita como fator determinante da
experiência. Quando clara e empática, foi associada à redução da
angústia e à construção de confiança. Quando vaga ou
insuficiente, gerou insegurança e ampliou o sofrimento.
Além das falas de F3 e F6, outros relatos reforçaram esse
achado: Eu não entendia os termos médicos e saía mais
preocupada (F1); Gostaria que tivessem explicado melhor os
exames(F2); Faltou retorno em alguns momentos(F3); Nem
sempre consegui falar com alguém da equipe (F4). Esses
exemplos reforçam a comunicação como moduladora da relação
entre familiares e equipe de saúde.
DISCUSSÃO
A hospitalização em UTI impacta significativamente não
apenas os pacientes, mas também seus familiares
acompanhantes, gerando repercussões emocionais profundas. Os
resultados deste estudo revelaram sofrimento psíquico intenso,
presença de luto antecipado, oscilações entre esperança e
aceitação da gravidade do quadro clínico, dificuldades de
comunicação com a equipe de saúde e a utilização da
espiritualidade como recurso de enfrentamento. Esses achados
corroboram pesquisas que destacam a experiência familiar como
parte integrante do processo de cuidado hospitalar(12-15).
O sofrimento emocional manifestou-se de forma heterogênea,
variando entre medo, ansiedade, angústia e tristeza, refletindo a
percepção da finitude e o luto antecipatório(16). Esse fenômeno foi
marcado pela alternância entre esperança de recuperação e
aceitação gradual da possibilidade de perda, evidenciando a
complexidade do enfrentamento familiar em situações críticas.
Estudos recentes mostram que esse processo pode ter
repercussões prolongadas, associando-se ao desenvolvimento da
Post-Intensive Care Syndrome Family(17), o que reforça a
relevância do suporte contínuo aos familiares.
A visita hospitalar constituiu um momento de relevância
afetiva e simbólica, funcionando como espaço de preservação de
vínculos e expressão de afeto. As manifestações verbais e não
verbais demonstraram que esse contato manteve a coesão
emocional entre paciente e familiares, mesmo diante da iminência
da morte, corroborando a literatura clássica sobre a importância
do vínculo na elaboração do luto(18). Revisões recentes reforçam
esse achado, apontando a visita como estratégia essencial para o
cuidado e suporte familiar em UTIs(19).
Entre os cinco núcleos centrais identificados, dois se
destacaram como determinantes para o sofrimento do
acompanhante em UTI: a relação heterogênea com a equipe de
saúde e a comunicação como fator determinante da experiência.
Esses aspectos estão intimamente relacionados a atores
organizacionais e institucionais, como cultura, missão, visão e
valores da instituição, modelo de atenção e condições de trabalho
oferecidas. Tais elementos influenciam diretamente a qualidade
das relações profissionais, o agir ético dos profissionais da saúde
e a efetividade da comunicação.
Quando a cultura organizacional é orientada
predominantemente para o desempenho técnico e centrada na
doença, tende a reproduzir relações assimétricas e hierárquicas
entre profissionais, pacientes e familiares. Em contrapartida,
instituições que promovem uma cultura de colaboração,
cooperação e cuidado centrado no paciente tendem a favorecer
comportamentos empáticos e acolhedores, reduzindo
desigualdades e ampliando a qualidade da comunicação entre
equipe e acompanhantes.
O acolhimento diferenciado entre categorias profissionais,
particularmente entre médicos e enfermeiros, também merece
destaque. A Enfermagem, por permanecer de forma mais
constante na UTI e lidar diretamente com as demandas
emocionais dos pacientes e familiares, está mais exposta a
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estressores ocupacionais intensos, como sobrecarga de trabalho,
escassez de recursos e ausência de apoio psicoemocional
institucional. Esses fatores contribuem para comportamentos
menos afetivos e para a dificuldade de manutenção de uma
postura humanizada contínua.
Dessa forma, a comunicação prejudicada e o desequilíbrio na
relação acompanhantemédico/acompanhanteenfermagem
devem ser compreendidos como expressões de um contexto
organizacional que ainda carece de integração, empatia
institucional e práticas colaborativas interdisciplinares. O
fortalecimento de políticas institucionais de humanização,
formação comunicacional e suporte emocional aos profissionais
poderia mitigar essas desigualdades e promover uma atuação
mais ética, sensível e centrada nas necessidades do paciente e do
acompanhante.
A relação com a equipe de saúde emergiu como fator
determinante na experiência dos acompanhantes. A comunicação
clara, a empatia e a escuta ativa foram percebidas como
elementos facilitadores do enfrentamento emocional, enquanto
lacunas informacionais intensificaram sentimentos de insegurança
e desamparo. Esse dado converge com os princípios da PNH(10) e
com estudos que evidenciam a comunicação como eixo central do
cuidado em contextos críticos(20-21). A pandemia de COVID-19
ressaltou ainda mais esse aspecto: a ausência de contato
presencial e a comunicação insuficiente agravaram a angústia e o
sofrimento familiar(22).
A espiritualidade destacou-se como recurso psíquico e
simbólico relevante, mobilizando esperança, resignação e
atribuição de sentido ao sofrimento. Seja por meio de crenças
religiosas ou práticas de oração, os familiares relataram que a fé
contribuiu para ressignificação da experiência e manutenção da
esperança, mesmo diante da gravidade clínica. Esse achado está
em consonância com estudos que apontam a espiritualidade como
mediadora do sofrimento em UTIs, favorecendo a elaboração
emocional e a resiliência(15).
Por fim, a atuação do psicólogo hospitalar revelou-se essencial
na mediação do sofrimento familiar, fornecendo escuta
qualificada, informações claras e suporte emocional contínuo.
Pesquisas recentes confirmam que práticas humanizadas em
UTIs, centradas no acolhimento multiprofissional, fortalecem
vínculos e reduzem a sobrecarga emocional dos familiares(12).
Em síntese, os resultados indicam que o impacto da
hospitalização em UTI vai além do paciente, envolvendo
dimensões emocionais, relacionais, espirituais e organizacionais
que moldam a experiência familiar.
A análise evidenciou cinco núcleos centrais: (1) sofrimento
emocional marcado pelo luto antecipado; (2) a visita como espaço
privilegiado de vínculo; (3) relação heterogênea com a equipe de
saúde; (4) espiritualidade como recurso de enfrentamento; e (5)
comunicação como fator determinante da experiência. Tais
achados reforçam a necessidade de práticas multiprofissionais
que promovam acolhimento, comunicação efetiva e suporte
integral, alinhadas a políticas de humanização e à produção
científica recente(19).
Limitações do Estudo
Entre as limitações, destacam-se o número reduzido de
participantes (n=6) e a realização em único centro, o que
restringe a generalização dos resultados. Existe ainda
possibilidade de viés de seleção, que apenas familiares
presentes durante o período de visita foram incluídos.
A condução das entrevistas pelo próprio pesquisador, que
atuava na unidade, pode ter influenciado as respostas. Além
disso, não foi realizada triangulação documental sistemática, o
que limita a ampliação das análises.
Contribuições para a Ciência
O estudo contribui para a ciência ao ampliar a compreensão
sobre os impactos da hospitalização em UTI nos acompanhantes
familiares, evidenciando necessidades de apoio psicossocial e
subsidiando práticas de cuidado mais humanizadas e
integradoras.
CONCLUSÃO
Este estudo qualitativo evidenciou os impactos emocionais
vivenciados por familiares acompanhantes de pacientes
internados em UTI adulta. O sofrimento psíquico mostrou-se
marcado por medo, ansiedade, luto antecipado e exaustão, em
um movimento oscilante entre esperança de recuperação e
aceitação da perda.
A visita ao paciente foi descrita como espaço central de vínculo
e expressão afetiva, assumindo também caráter de despedida
simbólica em situações críticas. A comunicação estabelecida com
a equipe de saúde modulou diretamente a experiência familiar:
quando clara e empática, proporcionou acolhimento; quando
insuficiente, intensificou sentimento de insegurança.
A relação com a equipe de saúde mostrou-se determinante
para o acolhimento e o suporte emocional, composta tanto pela
comunicação verbal quanto não verbal predominante na
linguagem afetiva e capaz de influenciar comportamento e atitude
individual e grupal.
Quando clara e empática, essa relação favoreceu o vínculo e
o bem-estar biopsicossocial; quando insuficiente, intensificou
sentimentos de insegurança e desamparo.
A atuação articulada da equipe multiprofissional médicos,
enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e outros
profissionais alinhada aos princípios da PNH, evidenciou-se
essencial para oferecer suporte contínuo ao paciente e à família.
A espiritualidade emergiu como recurso fundamental de
enfrentamento, favorecendo ressignificação do sofrimento e
sustentação emocional diante da finitude. A presença do psicólogo
hospitalar mostrou-se estratégica, ao oferecer escuta qualificada
e suporte emocional.
Do ponto de vista prático, os resultados reforçam a
necessidade de ampliar o cuidado em UTI para além do paciente,
incluindo os familiares como sujeitos igualmente impactados pelo
processo de adoecimento.
Estratégias multiprofissionais que priorizem escuta ativa,
comunicação qualificada e suporte emocional e espiritual
configuram-se como pilares para uma assistência humanizada.
Estratégias multiprofissionais que priorizem escuta ativa,
comunicação relacional humanizada, suporte emocional e
espiritual configuram-se como pilares para uma assistência
humanizada, cumprindo o objetivo do estudo de analisar o
impacto emocional dos familiares, compreender o estresse
associado à hospitalização e demonstrar como os cuidados
prestados pela equipe multiprofissional, integrados aos princípios
da PNH, favorecem um atendimento humanizado e de suporte
contínuo ao paciente e à família.
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CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
Transparência na contribuição dos autores segundo a
Taxonomia CRediT.
Conceitualização
Luana Santos Chagas da Paixão; Jucinei Araujo de
Jesus
Curadoria de dados
Não aplicável
Análise formal
Luana Santos Chagas da Paixão
Aquisição de financiamento
Não aplicável
Investigação
Luana Santos Chagas da Paixão
Metodologia
Luana Santos Chagas da Paixão; Jucinei Araujo de
Jesus
Administração do projeto
Luana Santos Chagas da Paixão
Recursos
Luana Santos Chagas da Paixão
Software
Não aplicável
Supervisão
Jucinei Araujo de Jesus
Validação
Luana Santos Chagas da Paixão
Visualização
Luana Santos Chagas da Paixão
Escrita - esboço original
Luana Santos Chagas da Paixão
Escrita - revisão e edição
Luana Santos Chagas da Paixão; Jucinei Araujo de
Jesus
DECLARAÇÕES
Conflitos de interesse
Não aplicável
Financiamento
Não aplicável
Aprovação ética
Não aplicável
Agradecimentos
Não aplicável
Preprint
Não aplicável
Inteligência Artificial
Não aplicável
REFERÊNCIAS
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care unit care and communication during the COVID-19
pandemic. Aust Crit Care 2023;36(3):350-60. doi:
10.1016/j.aucc.2022.03.003.
2. Lima Junior JRM, et al. Percepção da espiritualidade e
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