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Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2026;5:e202650048
INTRODUÇÃO
A hospitalização em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é uma
experiência complexa e estressante que afeta não apenas o
paciente, mas também seus familiares. O contexto de gravidade
clínica, risco iminente de morte e falta de informações claras
intensifica sentimentos de medo, angústia e impotência,
impactando diretamente o bem-estar emocional dos
acompanhantes(1-2).
Os familiares, frequentemente assumindo o papel de
cuidadores, enfrentam elevada carga de estresse e fragilidade
emocional, o que pode gerar alterações na dinâmica familiar.
Nesse cenário, torna-se fundamental reconhecer sua importância
no processo de cuidado e ampliar as estratégias de humanização
que incluam suporte e acolhimento também para os
acompanhantes(3).
Apesar disso, a família muitas vezes é negligenciada em
ambientes hospitalares, prevalecendo uma assistência centrada
exclusivamente no paciente(4). A qualidade da comunicação e da
relação com a equipe multiprofissional é determinante: quando
clara e empática, contribui para o enfrentamento, minimizando os
danos emocionais; quando falha, amplia o sofrimento(5).
A espiritualidade também surge como recurso central de
enfrentamento, funcionando como fonte de conforto,
ressignificação e sustentação diante da incerteza(6). Sua
relevância, embora reconhecida na literatura, ainda é pouco
explorada nas práticas hospitalares, especialmente no contexto
da UTI(7).
Nesse processo, a atuação da equipe multiprofissional, em
especial da psicologia hospitalar, é estratégica para promover
acolhimento, escuta qualificada e apoio emocional. O psicólogo
atua como mediador entre equipe, paciente e familiares,
favorecendo a comunicação e a elaboração do sofrimento
vivenciado(8).
À luz do modelo biopsicossocial(9) e das diretrizes da Política
Nacional de Humanização (PNH)(10), torna-se indispensável
compreender o impacto da hospitalização também sob a
perspectiva familiar, ampliando práticas que integrem cuidado
técnico e suporte emocional.
Assim, este estudo tem como objetivo analisar os impactos
emocionais e o sofrimento vivenciado por familiares
acompanhantes de pacientes internados em UTI adulta,
relacionando-os ao cuidado multiprofissional e aos princípios da
Política Nacional de Humanização.
MÉTODO
Desenho, Período e Cenário
Trata-se de um estudo qualitativo de campo, de natureza
descritiva e exploratória, realizado na UTI Adulta do Hospital
Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha, hospital público
localizado em São Paulo. A unidade dispõe de 20 leitos, sendo dois
de isolamento, e recebe pacientes das áreas clínica e cirúrgica.
A pesquisa foi conduzida entre junho e agosto de 2025, tendo
como participantes os acompanhantes familiares de pacientes
classificados pela equipe médica como em situação de risco
iminente de morte. Essa condição foi definida a partir de critérios
clínicos, como necessidade de ventilação mecânica invasiva,
escore elevado na escala SOFA, gravidade do prognóstico ou
indicação de cuidados paliativos.
Para assegurar a qualidade metodológica e a transparência da
pesquisa, o estudo seguiu as diretrizes da ferramenta
Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ).
Participantes da Pesquisa
Os participantes foram selecionados mediante convite,
realizado durante os horários de visita, sendo abordados pela
pesquisadora, que explicou os objetivos da pesquisa e esclareceu
eventuais dúvidas. Todos os familiares convidados concordaram
em participar e formalizaram sua adesão por meio da assinatura
do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Critérios de Inclusão e Exclusão
Participaram do estudo acompanhantes familiares que
mantinham presença constante junto ao paciente durante a
internação, por um período mínimo de 48 horas, e que possuíam
vínculo parental direto com o mesmo. Foram excluídos os
acompanhantes remunerados ou contratados que não
apresentavam relação de parentesco com o paciente.
Coleta de Dados
A coleta de dados envolveu entrevistas semiestruturadas com
familiares e levantamento de informações nos prontuários dos
pacientes, para caracterização clínica (diagnóstico principal,
tempo de internação e suporte ventilatório).
A coleta de dados foi realizada na sala de acolhimento
destinada aos acompanhantes, localizada dentro da UTI. Foi
entrevistado apenas um acompanhante por paciente. Todos os
familiares receberam e assinaram o TCLE, responderam a um
questionário sociodemográfico (idade, sexo, parentesco,
escolaridade, ocupação, religião, estado civil e tempo de
internação) e participaram de entrevistas semiestruturadas.
Foram realizadas seis entrevistas, cada uma com duração
entre 8 e 33 minutos, conduzidas pelo pesquisador — psicólogo
residente do último ano, atuante na UTI. Os familiares foram
abordados em horário de visita e convidados a participar do
estudo, sendo que todos aceitaram. As entrevistas foram áudio-
gravadas e transcritas na íntegra.
Foram registrados diário reflexivo, utilizado para apoiar a
supervisão, foi utilizado como ferramenta para apoiar a
supervisão, refletir sobre possíveis vieses interpretativos e
garantir maior rigor na análise dos dados. Nele foram registradas
observações sobre o comportamento e as emoções dos
participantes durante as entrevistas, reflexões acerca da atuação
do pesquisador e das possíveis interferências decorrentes de seu
vínculo profissional com a UTI, decisões tomadas ao longo do
processo de coleta e análise de dados, bem como notas sobre
reações inesperadas, dificuldades ou dúvidas interpretativas. A
utilização desse diário permitiu minimizar vieses relacionados à
atuação do pesquisador, conferindo maior transparência
metodológica e aumentando a confiabilidade na interpretação das
entrevistas.
A amostragem foi intencional, composta por familiares
acompanhantes de pacientes em risco iminente de morte. O
número de entrevistas (n=6) foi definido por saturação temática,
identificada a partir da análise iterativa dos discursos. As
categorias temáticas exploradas incluíram: sofrimento emocional,
visita familiar, relação com a equipe de saúde, espiritualidade e
comunicação.