Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2025;4:e202540028
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São Paulo/SP - CEP: 01513-020
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revista.cientifica@cejam.org.br
Autoria
André Ramalho
1,2
ORCID:
https://orcid.org/0000-0002-8099-3043
Instituição
¹Área de Pesquisa e Inovação Aplicada, Centro de
Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim (CEJAM), São
Paulo, Brasil.
2
Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços
de Saúde (CINTESIS), Faculdade de Medicina da
Universidade do Porto, Porto, Portugal.
Autor Correspondente
André Ramalho
e-mail: <andre.ramalho@cejam.org.br>
Como citar este artigo
Ramalho A. Gestão de Desempenho Dinâmico e Não
Linear nas Linhas de Cuidados Integrais. Rev. Tec.
Cient. CEJAM. 2025;4:e202540028. DOI:
https://doi.
org/10.59229/2764-9806.RTCC.e202540028
Submissão
Aprovação
20/01/2025
23/01/2025
Editorial
Gestão de Desempenho Dinâmico e Não Linear nas Linhas
de Cuidados Integrais
Dynamic and Non-Linear Performance Management in Integrated
Healthcare Pathways
A crescente complexidade dos sistemas de saúde, tanto no setor público
quanto no privado, exige abordagens inovadoras para otimizar o desempenho e a
coordenação entre diferentes níveis de atenção. As Linhas de Cuidados Integrais
(LCI) surgem como uma estratégia essencial para garantir a continuidade do cuidado,
desde a prevenção e diagnóstico até o tratamento e reabilitação
(1)
. No entanto,
para que as LCI sejam realmente eficazes, elas devem ser geridas com base em
dois princípios fundamentais: gestão de desempenho dinâmico e não linear. Esses
conceitos não apenas garantem a adaptabilidade das LCI às condições variáveis de
saúde da população, mas também maximizam o impacto das intervenções em uma
rede complexa e interconectada.
O que é a Gestão de Desempenho Dinâmico e Não Linear na Saúde
Populacional?
A gestão de desempenho dinâmico refere-se à capacidade de um sistema de
saúde ajustar-se continuamente às mudanças nas condições epidemiológicas,
sociais e tecnológicas.
Em um cenário de saúde em constante evolução, como o enfrentamento de
uma epidemia recente ou o avanço do perfil epidemiológico de uma doença crônica,
as LCI devem ser suficientemente flexíveis para incorporar novos conhecimentos,
tecnologias e estratégias sem perder de vista seus objetivos principais
(2)
.
Por outro lado, o conceito de desempenho não linear destaca que os impactos
em uma rede de saúde não seguem uma relação direta de causa e efeito. Pequenas
mudanças em uma parte da rede, como na atenção primária, podem gerar grandes
efeitos em outros níveis, como na atenção terciária. Assim, o fortalecimento das
LCI em uma de suas pontas pode reverberar em toda a rede, gerando resultados
positivos muito além do esperado inicialmente
(2-3)
.
A regionalização em saúde é outro elemento essencial para maximizar a
eficiência nas Redes de Atenção à Saúde (RAS)
(4)
. Ao organizar os serviços de
saúde de acordo com as especificidades e necessidades de cada região, torna-se
possível otimizar a alocação de recursos, reduzir redundâncias e garantir que as
intervenções sejam direcionadas para os pontos de maior vulnerabilidade
(5)
. Essa
abordagem integrada e territorializada é fundamental para que as LCI alcancem
resultados efetivos e sustentáveis
(6-7)
.
Relação entre Gestão Dinâmica e as Linhas de Cuidados Integrais
As Linhas de Cuidados Integrais são organizadas de forma a garantir que os
pacientes recebam um cuidado coordenado e contínuo ao longo de diferentes níveis
de atenção, do diagnóstico inicial ao tratamento especializado e à reabilitação.
No entanto, essa coordenação só é possível se a rede de saúde tiver mecanismos
dinâmicos de gestão de desempenho.
Por exemplo, em uma linha de cuidado voltada para o manejo da hipertensão
arterial, a rede precisa ser capaz de ajustar seus protocolos e fluxos à medida
que novas tecnologias diagnósticas ou tratamentos são desenvolvidos. Além
disso, a gestão dinâmica permite responder rapidamente a mudanças nos padrões
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epidemiológicos, como um aumento inesperado nos casos de
hipertensão devido a fatores ambientais ou sociais. A flexibilidade
para ajustar a linha de cuidado é crucial para manter sua eficácia
ao longo do tempo.
Além disso, a integração horizontal e vertical das RAS é
fundamental nesse contexto. A integração horizontal, que articula
diferentes serviços do mesmo nível de atenção, permite que
unidades básicas de saúde, por exemplo, compartilhem recursos
e boas práticas. Já a integração vertical assegura que o paciente
possa transitar de forma coordenada entre os níveis de atenção,
como da atenção primária para hospitais de alta complexidade. A
gestão de desempenho dinâmico garante que essas integrações
sejam continuamente ajustadas para melhorar o cuidado ao
paciente e otimizar o uso de recursos da rede
(1,4,6)
.
Importância do Desempenho Não Linear nas LCI
As redes de saúde são sistemas complexos e interconectados,
onde uma mudança em um ponto da rede pode ter efeitos
significativos em toda a cadeia de cuidado. Esse é o princípio do
desempenho não linear, que se aplica diretamente às LCI. Pequenas
intervenções ou ajustes em um nível da linha de cuidado, como a
introdução de uma nova tecnologia de monitoramento na atenção
primária, podem reduzir significativamente a necessidade de
intervenções de alta complexidade em sua jornada
(2,3,8,9)
.
Tomemos como exemplo a linha de cuidado para o
paciente com diabetes. Ao reforçar as ações de prevenção e
acompanhamento regular na atenção primária, como campanhas
educativas e monitoramento contínuo da glicemia, é possível
reduzir a ocorrência de complicações graves, como amputações
ou hospitalizações prolongadas. Esses resultados demonstram
a natureza não linear do desempenho: uma pequena melhoria
na base da linha de cuidado pode gerar um grande impacto na
saúde da população e na sustentabilidade do sistema de saúde,
aliviando a pressão sobre os serviços de alta complexidade.
Esse fenômeno também destaca a importância de planejar
e gerir as LCI de forma a maximizar esses efeitos não lineares.
Ao investir na coordenação e na qualidade do cuidado nas fases
iniciais de uma linha de cuidado, é possível evitar desfechos
adversos e otimizar o uso dos recursos da rede de saúde como
um todo
(1)
.
A aplicação dos princípios de desempenho não linear requer
que as equipes clínicas e gestoras compreendam como pequenas
mudanças estruturais e operacionais podem impactar o sistema
como um todo. Capacitar os profissionais de saúde para identificar
esses potenciais pontos de alavancagem torna-se crucial para
implementar soluções eficazes e sustentáveis. Além disso, a
construção de um modelo colaborativo entre diferentes níveis e
setores da saúde promove um entendimento coletivo dos desafios
e oportunidades, criando sinergias que aumentam os impactos
positivos das intervenções.
Finalmente, as redes de saúde devem ser projetadas de
forma a facilitar os fluxos de informações e a cooperação entre os
diferentes pontos de cuidado
(10)
. Sistemas de informação robustos,
aliados a mecanismos de feedback contínuo, são instrumentos
que potencializam os ganhos associados ao desempenho não
linear, assegurando que os resultados sejam mensuráveis e
reproduzíveis
(11)
.
Conexão com a Saúde Baseada em Valor (VBHC)
As LCI alinhadas aos princípios da gestão dinâmica e não
linear têm um papel essencial na transição de modelos baseados
em volume para aqueles baseados em valor. A saúde baseada em
valor prioriza a entrega de resultados que realmente importam
para os pacientes, como melhoria na qualidade de vida e na
funcionalidade, em relação aos custos envolvidos
(3,12)
.
Ao integrar esses conceitos, é possível estruturar as LCI
para maximizar benefícios tanto para os pacientes quanto para
o sistema de saúde. Por exemplo, a redução de internações
evitáveis através de um melhor manejo na atenção primária não
apenas melhora a experiência do paciente, mas também reduz
custos e aumenta a eficiência do sistema.
A implementação da saúde baseada em valor também requer
um compromisso contínuo com a medição de resultados que
sejam relevantes para os pacientes. Indicadores como satisfação,
autonomia funcional e adesão terapêutica devem ser priorizados
para guiar as tomadas de decisões no planejamento das LCI. Essa
abordagem, além de humanizar os cuidados, contribui para a
sustentabilidade financeira e a eficiência operacional do sistema.
Além de promover a integração entre os níveis de cuidado, a
avaliação contínua de resultados alinhada à saúde baseada em
valor (VBHC) deve priorizar medidas que reflitam a perspectiva
dos pacientes. Nesse contexto, os PROMs (
Patient-Reported
Outcome Measures ou Medidas de Resultados Relatados pelos
Pacientes
) e PREMs (
Patient-Reported Experience Measures ou
Medidas de Experiência Relatada pelos Pacientes
) emergem como
ferramentas essenciais
(13)
.
Enquanto os PROMs avaliam os resultados reportados
diretamente pelos pacientes, como melhoria na qualidade de
vida e controle de sintomas, os PREMs enfocam a experiência
vivenciada, incluindo aspectos como acessibilidade, comunicação
e satisfação com o cuidado recebido. Incorporar essas métricas nas
LCI permite não apenas monitorar a eficácia das intervenções, mas
também ajustar processos para atender melhor às necessidades
e expectativas dos pacientes, garantindo um sistema de saúde
mais centrado na pessoa e eficiente.
Aspecto extremamente relevante é o alinhamento entre
as necessidades dos pacientes e os incentivos oferecidos aos
provedores de saúde. Ao desenhar modelos de remuneração
que recompensem resultados de alto valor, é possível estimular
inovações e melhorias em todas as etapas da linha de cuidado.
Dessa forma, as LCI tornam-se não apenas ferramentas de
organização do sistema, mas também de transformação do
paradigma de cuidado em saúde.
Perspectiva Tecnológica e Inovação
A incorporação de tecnologias digitais é crucial para viabilizar
a gestão dinâmica e a análise de desempenho não linear nas LCI.
Sistemas de informação integrados, como prontuários eletrônicos
e plataformas de telemedicina, promovem a continuidade do
cuidado e facilitam o compartilhamento de dados entre os
diferentes níveis de atenção.
Adicionalmente, o uso de big data, aprendizado de máquina
e dispositivos vestíveis (
wearables
) pode apoiar a tomada de
decisões em tempo real. Essas ferramentas permitem que
gestores e profissionais ajustem fluxos de cuidado rapidamente,
baseando-se em evidências e padrões emergentes
(14-15)
.
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As inovações tecnológicas também podem melhorar a
experiência do paciente, oferecendo soluções como aplicativos
de monitoramento remoto e sistemas de comunicação direta
com as equipes de saúde. Essas tecnologias permitem um
acompanhamento mais próximo e personalizado, reduzindo
deslocamentos desnecessários e promovendo a adesão ao
cuidado.
Outro ponto essencial é a necessidade de infraestrutura
tecnológica adequada, sobretudo em regiões menos favorecidas.
Investir em conectividade e capacitação digital das equipes de
saúde garante que as inovações tecnológicas sejam acessíveis
e utilizadas de forma eficiente. Além disso, a integração dos
sistemas tecnológicos com as práticas clínicas deve ser conduzida
de forma a respeitar a segurança e a privacidade dos dados dos
pacientes.
Abordagem Centrada na Pessoa e na Comunidade
É condição
sine qua non
que as LCI considerem as necessidades
e expectativas dos pacientes e das comunidades
(1,4)
. Isso significa
criar soluções que não apenas atendam aos problemas clínicos,
mas também respeitem as características culturais, sociais e
econômicas das populações atendidas.
Estratégias de empoderamento do paciente, como programas
de educação em saúde e suporte ao autocuidado, são cruciais para
promover a adesão aos tratamentos e melhorar os desfechos.
Além disso, o engajamento comunitário na co-construção de
modelos de cuidado assegura que as soluções sejam adequadas
e sustentáveis.
Uma abordagem centrada na pessoa também requer que
os serviços sejam desenhados para oferecer experiências mais
humanizadas e integrativas. Espaços de cuidado que acolham as
diferenças e promovam o diálogo entre profissionais e pacientes
têm maior potencial de sucesso. Além disso, um cuidado
centrado na comunidade requer a formação de parcerias locais,
fortalecendo os vínculos entre serviços de saúde e organizações
comunitárias.
Promover campanhas de conscientização e criar canais para
que os pacientes participem ativamente das decisões também é
fundamental para garantir a adesão e a continuidade do cuidado.
Quando os indivíduos se sentem parte do processo, os resultados
tendem a ser mais duradouros e alinhados às expectativas da
população.
CONCLUSÃO
A crescente complexidade dos sistemas de saúde e a
necessidade de garantir uma atenção integral à saúde exigem
soluções que combinem inovação, tecnologia e uma abordagem
centrada nas pessoas
(16)
. Ao longo deste artigo, abordamos
como os princípios de gestão dinâmica e desempenho não linear
são cruciais para que as Linhas de Cuidados Integrais sejam
efetivas, sustentáveis e capazes de gerar impactos positivos
em todos os níveis das Redes de Atenção à Saúde. A integração
desses conceitos com a saúde baseada em valor e as inovações
tecnológicas fornece um arcabouço robusto para lidar com os
desafios contemporâneos.
Para garantir a implementação bem-sucedida das LCI, é
essencial um compromisso coletivo entre gestores, profissionais
de saúde e a comunidade. Investir na regionalização, na educação
em saúde e no empoderamento dos pacientes pode transformar
a experiência de cuidado e promover desfechos mais positivos.
Soluções que priorizem a continuidade, a humanização, o vínculo
longitudinal e a eficiência permitirão que os objetivos traçados
sejam verdadeiramente alcançados, resolvendo problemas críticos
e fortalecendo os sistemas de saúde. Dessa forma, reafirma-se
a hipótese de que a gestão dinâmica e não linear é um caminho
importante para uma saúde mais resiliente e equitativa.
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