Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2024;3:e202430027
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São Paulo/SP - CEP: 01513-020
11 3469-1818
revista.cientifica@cejam.org.br
Autoria
Evelyn Cristina Silva dos Santos
1
ORCID:
https://orcid.org/0009-0000-6023-4595
Instituição
1
Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha
- Campo Limpo, Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João
Amorim (CEJAM), São Paulo, SP, Brasil.
Autor Correspondente
Evelyn Cristina Silva dos Santos
e-mail: <evelynsantos.psico@gmail.com>
Como citar este artigo
Santos ECS. Cuidados Paliativos e o Protagonismo
do Paciente Através das Diretivas Antecipadas de
Vontade. Rev. Tec. Cient. CEJAM. 2024;3:e202430027.
DOI:
https://doi.org/10.59229/2764-9806.RTCC.
e202430027
.
Submissão
Aprovação
12/07/2024
29/07/2024
Artigo de Reflexão
Cuidados Paliativos e o Protagonismo do Paciente Através
das Diretivas Antecipadas de Vontade
Palliative Care and the Role of the Patient Through Advance Directives
Resumo
Objetivo:
O presente artigo busca apresentar o conceito de cuidados paliativos, bem
como a importância da participação ativa do paciente durante o processo de doença
e tratamento, através das diretivas antecipadas de vontade.
Método:
O presente
estudo trata-se de uma análise reflexiva sobre a temática de cuidados paliativos
e como se dá a autonomia do paciente durante esse processo. Por se tratar de
um estudo reflexivo, não houve uma padronização na revisão de literatura, sendo
considerados artigos que explorassem a temática de cuidados paliativos, diretivas
antecipadas de vontade e equipe multiprofissional.
Resultados:
O presente
estudo considerou que quando o paciente está bem assistido e recebe as devidas
orientações sobre seu quadro clínico e prognóstico, existe uma possibilidade maior
dele se apropriar de seus desejos e ter autonomia em suas escolhas.
Descritores
: Cuidados Paliativos; Diretivas Antecipadas; Assistência ao Paciente;
Autonomia Pessoal; Morte.
Abstract
Objective:
This article seeks to present the concept of palliative care, as well
as the importance of the patient’s active participation during the disease and
treatment process, through advance agreements of will.
Method:
The present
study is a reflective analysis on the topic of palliative care and how autonomy is
given to the patient during this process. As it was a reflective study, there was
no standardization in the literature review, considering articles that explored the
theme of palliative care, advance dispositions of will and multidisciplinary team.
Results:
The present study considers that when the patient is well cared for and
receives appropriate guidance about their clinical condition and prognosis, there is
a greater possibility of them taking ownership of their desires and having autonomy
in their choices.
Descriptors:
Palliative Care; Advance Directives; Patient Care; Personal Autonomy;
Death.
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INTRODUÇÃO
O termo "cuidado paliativo" ainda é pouco conhecido, sendo
associado ao cuidado direcionado para pacientes com doenças
terminais ou em final de vida. Pouco se fala a respeito da morte
ou o morrer, pois em nossa sociedade, a morte ainda é vista como
um tabu. Suas compreensões e reflexões existem de forma muito
velada, visto que ainda não é totalmente aceita. De acordo com
Kübler-Ross
(1)
, ao estudar as culturas de povos antigos é possível
observar que já havia uma abominação da morte, pois estava
ligada a uma questão ruim ou castigo e nunca como uma forma
natural de se encerrar a vida.
Desta forma, em um ambiente hospitalar onde há um
diagnóstico de doença terminal, o paciente e seus familiares,
geralmente, ficam aflitos com a situação, muitas vezes
esquecendo-se de viver e simplesmente tentando contornar a
doença para se evitar a morte.
Sabendo que nessa condição esses comportamentos
são comuns, os cuidados paliativos objetivam atenuar esse
sofrimento, tanto do paciente, quanto de sua família através de
iniciativas que possam confortá-los neste momento e garantir
uma melhor qualidade de vida durante essa espera.
De acordo com a Academia Nacional de Cuidados Paliativos
(ANCP)
(2)
, cuidados paliativos é uma abordagem ou tratamento
que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares diante
de doenças que ameacem a continuidade da vida.
Segundo Pimenta, Mota e Cruz
(3)
, o conceito de cuidados
paliativos surgiu em busca de controlar as dores advindas de
um processo de tratamento em fases avançadas da doença,
abordando as dimensões psicológicas, sociais e espirituais dos
pacientes e seus familiares.
Na graduação em saúde, geralmente o objetivo principal é
compreender as patologias em busca de um tratamento e cura,
entretanto, existem doenças na qual não existe tratamento
curativo. E quando isso acontece, muitas vezes o profissional
se depara com o desconhecido, não sabendo como lidar com
tais questões e é neste contexto que surge a necessidade de
se conhecer os cuidados paliativos. De acordo com Floriani e
Schramm
(4)
, é necessária a inclusão da disciplina "cuidados
paliativos" na graduação em saúde, em busca de acolher o
paciente e sua família.
Quando o paciente está em condições terminais da doença e
os tratamentos curativos já não fazem mais efeito, é comum que
busquem alternativas para auxiliá-lo. Contudo, esses processos,
geralmente, contribuem para amenizar os sintomas físicos, não
abordando dimensões psicológicas do paciente. Desta forma,
se faz necessário a atuação multiprofissional, para que possam
sustentar tanto as dimensões físicas, quanto as psicológicas do
paciente.
As pesquisas apontam que a atuação de uma equipe
multiprofissional se faz necessária para que haja uma assistência
digna ao paciente, uma vez que todas as suas questões e
enfermidades serão olhadas e sustentadas por um profissional
devidamente qualificado para tal. De acordo com Oliveira e
Silva
(5)
,
[…] pode-se afirmar que os cuidados paliativos dependem de
uma abordagem multidisciplinar para produzir uma assistência
harmônica e convergente ao indivíduo sem possibilidade de cura e
à sua família
(5:213)
.
Para que a dignidade do paciente seja garantida, existem as
diretivas antecipadas de vontade (DAV), consistindo em permitir
que o paciente expresse suas vontades e desejos relacionados a
seus últimos momentos de vida.
Abordar sobre esse assunto com o paciente acaba sendo
desconfortável para seu familiar, uma vez que sempre há uma
esperança de cura, fazendo com que neguem a realidade da
morte. Neste momento, a intervenção da equipe de saúde se
faz necessária, não apenas para efetuar as vontades finais do
paciente, mas também orientar a importância para a família.
Uma das possíveis atuações da equipe de saúde é fazer a
intermediação com a família, para que possam promover essas
diretivas, interagindo com seu familiar para que ele expresse seus
desejos. Contudo, é comum haver o cerco do silêncio, onde a
família é alertada de algumas questões sobre o paciente, mas as
esconde dele. Quando a equipe detecta essa falta de comunicação,
se faz necessário que haja uma intervenção com a família para
que ela possa compreender a importância da autonomia do
paciente e que a mesma é uma forma de respeito, assim como
uma premissa fundamental dos cuidados paliativos.
Desta forma, o presente artigo busca compreender a
importância e a atuação de profissionais da área da saúde em
cuidados paliativos e como se dá a relação com os familiares
ao se tratar das diretivas antecipadas de vontade. Intenciona,
ainda, entender de qual forma a interação de uma equipe torna-
se benéfica ao paciente e sua família, buscando desmistificar o
processo de morte para que haja uma melhor compreensão da
mesma, pois uma vez que há essa reflexão, possivelmente a
família contribuirá com a equipe nos desdobramentos da doença
do paciente e com o processo de finitude.
MÉTODO
Desenho e Cenário
Trata-se de uma comunicação reflexiva sobre a temática
de cuidados paliativos e como se dá a autonomia do paciente
durante esse processo.
Por se tratar de conteúdo reflexivo, não houve uma
padronização na revisão de literatura, sendo considerados artigos
que explorassem a temática de cuidados paliativos, diretivas
antecipadas de vontade e equipe multiprofissional.
RESULTADOS
Pensar em cuidados paliativos é algo muito recente, contudo,
há indícios de sua existência desde os primórdios. Antigamente,
os cuidados oferecidos à população em geral tinham um segmento
mais próximo ao cuidar do que ao curar. Porém essa condição foi
sofrendo inúmeras alterações com o passar dos anos, devido a
alguns fatores que serão discutidos ao longo da exposição.
O cuidar é instintivo, podendo ser observado ao longo da
evolução no comportamento dos animais. Os progenitores
ficavam sempre a disposição de seus filhotes, a fim de protegê-
los e assegurar sua sobrevivência, assim como alimentá-los e
ensiná-los a fugir de predadores e se alimentarem sozinhos, pois
a perpetuação da espécie e a preservação da vida, sempre foram
instintos básicos
(3)
.
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Essa condição ilustra que o cuidar sempre esteve presente
nas relações, o que não difere do ser humano. Todavia, tais
cuidados passaram de seu modo instintivo ao profissional, pois
ao se depararem com a crescente demanda de pessoas que o
precisavam, foram surgindo diferentes modos de fazê-lo.
Pimenta, Mota e Cruz
(3)
trazem a ideia do curandeiro, pajés,
parteira, que remete a um cuidado mais natural, ou seja, não
existiam muitas intervenções cirúrgicas ou farmacológicas
como conhecemos hoje e essas pessoas eram as responsáveis
em promover e cuidar da saúde do povo naquela época, pois
acreditavam que nasciam com um dom para tal. Suas intervenções
eram realizadas através de elementos que extraíam da própria
natureza e os cuidados prestados eram focalizados no bem-estar
do outro. A cura era almejada sim, porém os cuidados eram
direcionados primeiramente na amenização do sofrimento, e só a
partir daí, pensava-se em outra alternativa.
Essa mesma estrutura, era encontrada nos primeiros
profissionais da saúde, pois até o século XX, esses profissionais
compartilhavam os mesmos objetivos dos curandeiros e pajés,
porém com uma demanda maior. Começou a se difundir a
eficácia desses cuidados a partir da melhor qualidade de vida que
proporcionavam.
Com o decorrer dos anos, tais cuidados se sofisticaram,
surgindo especialistas que passaram a pensar em tratamentos,
primeiramente, contra ferimentos de guerra e logo após contra
sintomas em geral. Inicialmente, surgiram equipamentos para
auxiliar esses profissionais, contribuindo para os tratamentos.
Contudo, atendimentos que eram realizados à domicílio, passaram
a se concentrar em centros específicos, devido a maquinaria e
materiais necessários para tal.
Com essas novas descobertas tecnológicas foi-se atribuindo
valores para esses cuidados, ou seja, começou a comercialização
da saúde, sendo elas tanto públicas como privadas, tendo que
envolver agências para organizar essa demanda
(3)
.
Muitos tratamentos começaram a ser realizados na busca
excessiva por cura e a humanização acabava ficando de lado.
Cirurgias e tratamentos invasivos eram realizados em grande
quantidade, pois acreditavam que era necessário fazer todo o
possível para curar o paciente.
Não se pode descartar as inúmeras contribuições da tecnologia
para a medicina, pois muitas pessoas estão sendo curadas devido
a isto. Contudo, o que se pretende ressaltar é que existe um
limite da utilização de instrumentos modernos para salvar uma
vida, pois existem polos nos quais apenas um olhar endereçado e
um cuidado significativo pode alcançar.
O cuidar acabou ficando em segundo plano, entretanto, essa
filosofia vem sendo resgatada da antiguidade e fazendo valer
na atuação de muitos profissionais, que começaram a rever a
forma de enxergar o outro, utilizando-se do aforismo de que "a
medicina cura algumas vezes, melhora muitas vezes, mas consola
sempre"
(3:14)
.
Contudo, foi na Idade Média que começou a se pensar na
filosofia dos cuidados paliativos que, de acordo com a ANCP
(2)
,
surgiram locais chamados hospices que abrigavam pessoas em
situação de rua, enfermos, mulheres grávidas, pobres, enfim,
todos com alguma vulnerabilidade eram acolhidos a fim de serem
cuidados.
Nestes hospices, o cuidar era fundamental e o objetivo
principal era o controle da dor e o cuidado com as esferas
psicológicas e sociais. Através desse movimento, começou a se
pensar nesta outra forma de se fazer medicina, porém outros
profissionais eram necessários para tal, visto que não apenas o
fisiológico era olhado, mas as necessidades do paciente como
um todo. Primeiramente, buscou-se voluntários, para depois
incluírem outros profissionais, formando assim, uma equipe
interprofissional.
Em 1967, Cicely Saunders fundou o St. Christopher’s, através
do Movimento Hospice Moderno e começou a fazer com que os
cuidados paliativos fossem introduzidos em diversas enfermarias,
em busca da amenização de sintomas e controle da dor.
A partir deste movimento, que também promovia estudo e
pesquisa em cuidados paliativos, essa filosofia foi se disseminando,
até chegar ao Brasil em 1997, através da Associação Brasileira de
Cuidados Paliativos (ABCP), fundada em São Paulo, que buscou
uma padronização para esses cuidados, que existiam de forma
indireta, porém não se pensava sobre, trazendo assim essa
reflexão para o cenário hospitalar brasileiro.
Conceitos Gerais e o Protagonismo do Paciente
Dentro do conceito de cuidados paliativos e ações em saúde,
existem algumas diferenciações quanto ao cuidado ofertado
ao paciente, sendo eles: eutanásia, distanásia e ortotanásia,
sendo o último conceito o mais próximo da filosofia dos cuidados
paliativos.
Para se pensar sobre a ortotanásia, é importante caminhar
pela eutanásia e a distanásia para que a compreensão seja mais
sólida e a aproximação com os cuidados paliativos se torne mais
coerente.
O termo eutanásia, um pouco mais conhecido pelo senso
comum, é fazer com que haja uma aceleração do processo de
morrer, sendo essa uma escolha do próprio paciente. Porém esse
entendimento, muitas vezes é deturpado e acaba sendo associado
ao suicídio.
Sá
(6)
apresenta uma discussão do termo, apontando sua data
de criação, que ocorreu no século XVII, que deriva do grego,
significando "boa morte", "morte apropriada", "direito de matar",
entre outros. A eutanásia proporciona a aceleração do processo de
morrer. Todavia, atualmente, o Projeto de Lei Nº 5058, de 2005,
que regulamenta em seu art. 226, § 7º, da Constituição Federal,
dispondo sobre a inviolabilidade do direito à vida, definindo a
eutanásia e a interrupção voluntária da gravidez como crimes
hediondos, em qualquer caso.
Na distanásia ocorre o efeito inverso da eutanásia. Enquanto a
eutanásia acelera o processo do morrer, a distanásia o prolonga.
Quando se analisa os avanços tecnológicos na área da medicina,
percebe-se uma grande mudança nos tratamentos que ocorreram
na atualidade.
A distanásia é sempre o resultado de uma determinada ação ou
intervenção médica, que ao negar a dimensão da mortalidade
humana, acaba absolutizando a dimensão biológica do ser
humano
(7:201)
.
Kovács
(7)
aponta a distanásia como uma "futilidade médica",
visto que realizam tratamentos invasivos, em um momento que
se sabe que não existe recuperação, provocando dor e sofrimento
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ao paciente. Neste sentido, Marta, Hanna e Silva
(8)
apontam que:
Ademais, a manutenção meramente artificial de práticas que
conseguem manter temporariamente os fenômenos vitais em um
organismo moribundo não deve ser confundida com "aquela vida"
protegida pela Constituição Federal, para a qual está garantida a
dignidade da pessoa humana. A obrigação legal da aplicação dessas
medidas implica submeter os pacientes terminais a terapêuticas
aviltantes e desumanas
(8:59)
.
A partir do pensamento de Kovács
(7)
, é possível observar que
a ideia da realização da distanásia, no senso comum, está muito
colada a não oferecer um tratamento curativo. Contudo, como
ela afirma, nem sempre isso é o melhor, pois existem outras
possibilidades de ajuda frente à finitude da vida.
[…] a morte é vista como parte do processo da vida, e no
adoecimento, os tratamentos devem visar a qualidade dessa vida e
o bem estar da pessoa, mesmo quando a cura não é possível; mas
frente essa impossibilidade, nem sempre o prolongamento da vida
é o melhor – e insisto que não se está falando de eutanásia, como
muitos creem
(7:116)
.
O valor da experiência humana e da morte como constituinte,
já não faz mais sentido em um momento onde as máquinas
operam, pois estar "vivo", é poder reconhecer suas próprias
limitações e compreender sua finitude, é poder ter sua autonomia
e integridade física e moral protegidas.
Frente a esta discussão, surge a utilização do termo ortotanásia,
que vem do grego e significa "morte natural". A ortotanásia faz
parte da filosofia dos cuidados paliativos, é o cuidar e deixar com
que a vida siga naturalmente. Muitos pensam que é uma omissão
de ajuda, contudo, só é realizada a partir do momento em que os
tratamentos curativos já não são mais funcionais.
Nos cuidados paliativos, o tratamento da doença é minimizado
ou até mesmo deixado de lado e o controle dos sintomas começa
a ser o foco principal a ser olhado no paciente. Não apenas os
sintomas físicos, mas também psíquicos e sociais.
Pensar na ortotanásia como uma ação exclusiva dos cuidados
paliativos, é contribuir para o estigma que a própria atuação do
paliativista carrega: "deixar o paciente morrer". Muitos pacientes
quando são encaminhados para a equipe paliativista, perdem
a esperança de viver, mas desconhecem o real propósito, a
contribuição e o cuidado que podem lhe oferecer diante do
processo de finitude.
Admitir a morte como um fato, é doloroso para qualquer um,
contudo, essas questões que atravessam o paciente podem ser
trabalhadas com objetivo de ajudá-lo em sua elaboração, para
que possa compreender que essa fase pode ser passada com um
olhar diferente e com sua dignidade e autonomia preservada.
[…] o movimento de cuidados paliativos traz um grande progresso
no que concerne aos cuidados no fim da vida, restituindo o bem-
estar global e a dignidade ao paciente gravemente enfermo,
favorecendo a possibilidade de viver sua própria morte, um
respeito por sua autonomia e não o abandono à própria sorte
(7:206)
.
Os cuidados paliativos buscam permitir que o paciente tenha
uma "boa morte" e participe integralmente deste processo, que
não haja sofrimentos e dores, que ela venha em seu tempo
naturalmente. Porém é preciso ter certo cuidado ao buscar
conceituar essa "boa morte", pois para isso é fundamental o
conhecimento de cada caso em particular
(7)
. Não existe uma
normatização dos procedimentos de ortotanásia, pois cada
paciente é único e tem suas necessidades específicas a serem
olhadas em sua singularidade.
Dentro dos cuidados paliativos, o olhar dos profissionais
abrange todas as questões, por isso deve ser composto por uma
equipe multiprofissional, pois cada profissional terá o cuidado
necessário para garantir uma qualidade de vida para esse sujeito.
Os profissionais buscam promover uma reflexão sobre a finitude
com o paciente, pois o medo de morrer, sofrer, sobrecarregar a
família, entre outros, são constantes. Porém, Kovács
(7)
aponta
uma dificuldade em esclarecer essas questões quando não há um
apoio da família ou eles também não conseguem tomar contato
com o assunto. Por este motivo, o contato e acompanhamento
da família é fundamental, pois na falta da palavra do paciente, a
família responde por ele. Contudo, a autonomia do paciente não
é deixada de lado, então, a família deve decidir de acordo com as
vontades expressas do paciente. Sendo assim, é necessário que
tenha uma aproximação da família com as condições do paciente
e um contato próximo, permitindo com que essas vontades sejam
declaradas e respeitadas.
A possibilidade de um indivíduo saber que não há perspectiva
de cura para sua doença, e, portanto, abrir reflexão sobre
questões referentes a sua finitude, pode gerar intenso sofrimento
para uma família, e sobretudo pra quem atravessa tal situação.
Ter a possibilidade de ter suas crenças, cultura e moral
respeitadas, é imprescindível. De acordo com Abreu e Fortes
(9)
, o
respeito a autonomia do paciente tem significância clínica, legal
e psicológica. Do ponto de vista clínico, favorece a confiança na
relação terapêutica, maior cooperação do paciente e satisfação
com relação ao tratamento. Em termos legais, respalda os direitos
individuais sobre o próprio corpo. Do ponto de vista psicológico,
oferece ao paciente senso de controle sobre a própria vida e de
valor pessoal.
Poder decidir, com o apoio de seu médico, sobre seu tratamento
medicamentoso e sobre a realização ou não de procedimentos
invasivos, é acima de tudo, ter sua dignidade respeitada. Contudo
ainda não há uma lei específica no que diz respeito à efetivamente
exercer o direito de decidir sobre a morte. A ortotanásia, como já
exposto, consiste sumariamente em validar a prática médica de
respeitar a morte natural do sujeito.
No entanto, existe também uma resolução do Conselho
Federal de Medicina CFM 1.995, do dia 31 de agosto de 2012
(10)
,
que busca dar a possibilidade de o médico poder respeitar os
desejos do paciente, tratando-se de não determinar que haja uma
tentativa abusiva de reverter o processo natural da morte, em
algum caso avançado e irreversível de doença. É recomendado
que o profissional registre essas vontades no prontuário do
paciente e as mesmas passem a ser validadas e respeitadas.
Essa conduta oferece a possibilidade de o sujeito que esteja
consciente e lúcido, discorrer sobre a realização ou não de
determinados procedimentos. É o seu testamento vital, além de
possibilitar a nomeação de uma pessoa escolhida por ele, para
que seja seu procurador de saúde, e que decida frente a equipe
médica, considerando sobretudo suas vontades, caso o mesmo
não tenha mais condições de manifestar as mesmas.
As DAV podem ser uma possibilidade de dignidade para o
paciente, o qual terá a oportunidade de decidir sobre seu corpo,
sua vida. Para o paciente elaborar sua DAV juntamente com seu
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médico, é necessário que ele entenda com clareza sua doença e
suas perspectivas de tratamento. É fundamental a comunicação
efetiva e assertiva entre a equipe multiprofissional e o paciente,
logo entre equipe e familiares, e deve haver também essa
comunicação entre o doente e seus familiares.
Contudo, às vezes ocorre uma falha na comunicação entre
família e o enfermo, pois se estabelece um clima de segredo entre
eles, fazendo com que haja informações truncadas, onde se dá o
nome de "cerco do silêncio". A equipe precisa estar atenta para
identificar e agir para que não ocorra. Por vezes o paciente tenta
esconder a real situação de seu estado clínico dos familiares e a
família também quer esconder do próprio sujeito o que realmente
ocorre com sua saúde.
Conforme exposto por Abreu e Fortes
(9)
pode-se concluir
que há uma boa intenção em se tratando da motivação que
leva a realizar o cerco do silêncio, porém o resultado diverge
da segurança e serenidade, pois leva a um elevado estado de
ansiedade, medo e confusão. Além do fato de negar aos sujeitos
a oportunidade de repensar, planejar e adaptar suas vidas para a
realização de metas mais plausíveis, baseadas em esperanças e
aspirações pautadas na verdade. No caso dos cuidados paliativos,
é extremamente necessário que sejam dadas informações
concisas para as decisões a respeito do local da assistência da
morte sejam tomadas, e também para que seja possível colocar
assuntos pendentes em ordem, despedir-se, fazer as pazes e
proteger-se de terapias fúteis. O respeito por colocar a verdade
ao paciente através de informações consistentes é tido como
imperativo ético.
E segundo Kovács
(7)
:
[...] na maior parte das instituições hospitalares observa-se a
mencionada posição paternalista, na qual, baseada no princípio
da beneficência, a equipe age unilateralmente, justificando-se
com a ideia de que sabe o que é melhor para o paciente; ou seja,
considera que este não está preparado para saber o que é melhor
para si. Assim a equipe de saúde é depositária do saber
(7:168)
.
No entanto, existe uma busca por mudar tal pensamento,
fazendo com que se torne primordial olhar o sujeito, ante a sua
doença e avaliar a situação como um todo, para que se possa de
fato respeitar, e respaldar as escolhas do mesmo. Pode-se afirmar
que a filosofia de uma equipe de cuidados paliativos se baseia
em buscar ter essa sensibilidade e dar suporte, para que todos
possam facilitar os percalços que possam surgir para que de fato
as DAV possam ser realizadas e respeitadas.
É necessário que haja uma equipe que respeite o ser humano,
e que tenha um manejo adequado para tratar de questões tão
delicadas, e que, ao ouvir os pacientes, possam realmente
compreender o que de fato eles queiram fazer, sem julgamento,
juízo de valor, impressões pessoais e interferências. Aceitar a
subjetividade, a história de vida e as diferenças.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta reflexão possibilitou uma aproximação com o tema
de cuidados paliativos, ampliando a visão de seus objetivos e
contribuições em relação ao paciente e sua família, bem como
mostrou que a atuação da equipe multiprofissional se faz
necessária para que o trabalho possa ter êxito nos resultados e
que o paciente possa ser protagonista em suas escolhas.
Entende-se que durante um processo de adoecimento, é
possível que o paciente fique mais fragilizado e muitos vezes
limitado para fazer suas próprias escolhas e exercitar sua
autonomia. Diante disso, se faz necessário que os profissionais de
saúde considerem a diretiva antecipada de vontade como recurso
primordial para assegurar que o paciente tenha seus desejos e
limites respeitados. Todavia, para que haja a possibilidade de tal
manejo, é preciso que a equipe tenha a conduta bem delimitada
e forneça as informações necessárias ao paciente, para que ele
possa ter tempo hábil para elaborar tal experiência, se apropriar
do assunto e conseguir falar sobre seus desejos.
Tendo em vista os amplos aspectos a serem discutidos, se faz
necessária a propagação do tema através de novas pesquisas.
Considerando o enfoque multiprofissional, é necessário que todas
categorias profissionais compreendam a importância de sua
atuação para os cuidados paliativos, disseminando esse conceito
para promover novas discussões e atualizações sobre o tema.
REFERÊNCIAS
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Fontes; 2008.
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Pimenta CAM, Mota DDCL de F, Cruz DALM. Dor e cuidados
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Floriani CA, Schramm FR. Desafios morais e operacionais da
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Oliveira AC de, Silva JP da. Autonomia em cuidados paliativos:
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Kovács MJ. Bioética nas questões de vida e morte. Psicol USP.
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